Uma história muito estranha

O romance de Bulwer-Lytton que mereceu elogios de Charles Dickens e influenciou Bram Stoker, onde ele aborda os mais diversos fenômenos paranormais que marcaram sua obra literária,magia, alquimia e a busca da imortalidade: Uma Estranha História (1862)
(texto de Bira Câmara)

Bulwer-Lytton sempre acalentou o projeto de abordar o tema da imortalidade, junto com outras questões metafísicas e filosóficas, numa obra mais profunda. O seu Conto de Kosem Kesamim, como ele mesmo revelou, deveria ser posteriormente reelaborado numa obra mais pretensiosa, e para o autor a principal dificuldade deste projeto seria “evitar que se tornasse uma mera imitação do Fausto”. Tudo leva a crer que este projeto resultou nesta Uma estranha história, obra que junta ficção científica, romance, mistério de assassinato, introspecção sobre o sentido da vida e espiritualidade, intercalada com preocupação social. Escrita vividamente no contexto filosófico histórico da era vitoriana, trata do tema espiritualidade, da busca alquímica da imortalidade, sem cair nos clichês das novelas góticas da época.

Este romance, por ocasião de sua publicação em partes na revista norte americana Harper’s Weekly em 1861, recebeu elogios de Charles Dickens, que escreveu a Bulwer Lytton em uma carta de 18 de dezembro de 1861: “E eu digo: o mais magistral e o mais admirável! (…) Não pode haver dúvida da beleza, poder e excelência artística de todo o romance. Sua carreira mostra que mesmo a riqueza e o nascimento elevado nem sempre sufocam o gênio” (Harper’s Weekly, 10 de agosto de 1861, vol. V., n. 241).

Caricatura de Edward Bulwer-Lytton, Vanity Fair (1870)

No transcorrer da trama, há referências aos rosacruzes, alquimistas, sábios e adeptos que eram “versados nos mistérios da natureza”, levando o leitor a se perguntar se eles estão entrelaçados na história porque talvez estariam historicamente conectados através de um propósito benevolente maior para a humanidade.

Uma estranha história foi descrito como “‘um romance baseado em alguns reflexos da realidade’”, com “alguns grãos de verdade” entre “as porções de mistério, suspense e romance inseridas para dar efeitos dramáticos”, elementos que o tornaram um escritor de sucesso com histó­rias que encantaram seus leitores e se tornaram best-sellers.

A ficção encoraja o leitor a suspender a descrença em relação àquilo que ele não pode experimentar ou explicar pela razão, pelos seus cinco sentidos corporais, pois há mais coisas na vida e na natureza do que nossos sentidos humanos podem perceber.

Em certo trecho da obra, o herói Allen Fenwick se pergunta: “Existem em mim sentidos mais refinados do que aqueles que cultivei ou sem perspectivas de conhecimento que instiga, além de meus sentidos, o divino?” A história põe em discussão o desenvolvimento da ciência além da filosofia e da religião, espiritualidade — com referências à ciência do raciocínio indutivo de Francis Bacon.

Na sua preocupação com questões de ordem filosófica, Lytton transcende a esfera de uma mera obra literária e propõe discussões de natureza metafísica e moral sobre os limites da razão e sua incapacidade de compreender tudo aquilo que está na esfera da Alma. Assim, a formação racionalista e carteziana do personagem principal que narra a história é confrontada, ao longo da trama, pela sua experiên­cia de fenômenos que escapam à explicação da ciência oficial.

O Dr. Fenwick, um médico de província, típico exemplar de uma mente científica educada dentro dos paradigmas materialistas do século, se depara com o enigmático Margrave, personagem que é quase uma paródia do Fausto em sua busca da imortalidade. O confronto entre ambos é pretexto para amplas discussões filosóficas que levam o leitor a profundas reflexões. Sem dúvida, Margrave é um dos personagens mais singulares da literatura do século XIX, e poderia, à luz da psiquiatria moderna, ser classificado como um completo psicopata. Por outro lado, a heroína torna-se o foco de tensão da trama: jovem sonhadora e conectada com mundos distantes da realidade, tem o “dom das Pitonisas da antiguidade”, e é disputada por Margrave como instrumento para alcançar seus propósitos obscuros. Em meio a tudo isso, Lytton também consegue inserir uma crítica à alta sociedade que ele conheceu tão bem, pois fazia parte dela.

Edward Bulwer-Lytton é lembrado principalmente como um romancista prolífico, cujos vários romances ainda hoje “permanecem imensamente legíveis” — “um romancista de primeira categoria”. Apesar de ter escrito várias obras de cunho fantástico, que lhe valeram o rótulo de “esotérico”, ele não é um autor de leitura fácil, desses que apelam para fórmulas consagradas para fisgar o leitor adepto deste gênero literário. Muitos de seus romances misturam habilmente a metafísica com suas observações autobiográficas sobre a alta sociedade contemporânea.

Edward Bulwer-Lytton

Bulwer-Lytton sonhava com uma Teoria Unificada, conectando eletricidade e magnetismo, que poderia, talvez, descobrir “segredos da natureza que possam se mostrar bastante reconciliáveis com a ciência sóbria”. Assim, no prefácio deste romance ele pondera: “Bem posso conceber que a história que conto será considerada pela maioria como uma fábula selvagem e fantástica; que, para alguns, pode ser um veículo de palpites em vários enigmas da natureza, fora ou dentro de nós, que são livres de licença no romance, embora proibido pela cautela da ciência”.

Pondere se “a razão já avançou um passo para o conhecimento, exceto através daquela faculdade imaginativa que é mais forte na sabedoria da ignorância e mais fraca na ignorância dos sábios”?

Afinidades literárias entre Pöe e Bulwer-Lytton

Muita gente ignora que Bulwer-Lytton teve grande influência na prosa inicial de Edgar Allan Pöe, que inclusive era um admirador declarado do escritor inglês. Ele já era um escritor altamente aclamado desde 1830, bastante conhecido também do público norte americano. O seu romance Paul Clifford transformou o herói em criminoso, assim como em muitos dos contos de Pöe, como “O Coração Denunciador”, “O Gato Preto”e “O Barril de Amontillado.

Poucos críticos prestaram atenção na influência que o escritor inglês exerceu sobre muitos dos contos de Pöe, como fica evidente no seu William Wilson, cuja temática é a mesma de Monos e Daimonos, de Bulwer-Lytton, uma curiosa antecipação do conto de Pöe. Esta história foi publicada em 1839, três anos depois da obra de Lytton, e aborda o tema do duplo — o doppelgänger, que surgiu na literatura a partir do célebre romance de Hoffmann Os Elixires do Diabo. Mas o personagem de Lytton não é propriamente o «duplo», ou cópia idêntica do personagem, embora sem dúvida seja uma espécie de alter ego que passa a acompanhá-lo e assombrá-lo.

Pöe leu não apenas romances de Bulwer-Lytton, mas também alguns de seus escritos menores. Em 1836, ele fez a resenha de Rienzi, de Bulwer-Lytton, publicada no Southern Literary Messenger, onde declara:

Uma Estranha História
Texto integral, ilustrado.
1a edição em língua portuguesa.
Tradução de Júlia Câmara e prefácio de Bira Câmara. Brochura, 440 págs. 14 X 20 cm. (2019)

“Há muito que aprendemos a reverenciar o bom intelecto de Bulwer. Aceitamos qualquer produção de sua caneta com uma certeza positiva de que, ao lê-la, as paixões mais loucas de nossa natureza, os pensamentos mais profundos, as visões mais brilhantes de nossa fantasia e a mais enobrecedora e elevada de nossas aspirações, por sua vez, será estimulado dentro de nós. Temos a certeza de sair da leitura como homem mais sábio, senão melhor.”

Os dois autores exploraram linhas de ficção semelhantes durante seus anos produtivos. As primeiras ficções de Bulwer-Lytton em Newgate se assemelham a contos góticos de Pöe; seus romances históricos encontram sua contrapartida no gosto de Pöe pelos clássicos; seus romances domésticos tardios têm alguma semelhança com os contos de Pöe e os romances ocultos e metafísicos de Bulwer-Lytton lembram algumas das peças do escritor americano.

Mas enquanto Bulwer-Lytton escreveu extensos romances, Pöe preferia o conto, que na sua opinião era o gênero mais adequado para alcançar sua unidade de efeito. Ao avaliar os romances de Bulwer, ele elogiou seus temas e idéias, mas discordou de seu tratamento e, antes de tudo, não gostava da duração dos seus romances, demasiado extensos, no que por certo até os seus fãs concordariam.

Nota biográfica

Lord Edward Bulwer-Lytton, romancista e dramaturgo, teve uma carreira política muito intensa e, além de ter sido eleito vá­rias vezes para o Parlamento britânico, foi também Secretário de Estado para as Colônias em 1858. Nasceu em Londres, em 25 de maio de 1803, numa família aristocrática e já compunha versos desde os dez anos de idade. Estudou em Cambridge, onde se destacou como poeta e dramaturgo; em 1831 ingressou na política e foi ministro de Assuntos Exteriores. Seu habilidoso trabalho na política lhe valeu o título de Primeiro Barão de Lytton. Quando o rei Otto da Grécia abdicou em 1862 foi lhe oferecida a coroa, mas ele a recusou.

Bulwer-Lytton foi um dos escritores mais prolíficos de meados do século XIX, produzindo obras espirituosas e elegantes como Pelham, que estabeleceu regras para o vestuário masculino que mais tarde levaram à introdução da gravata como um item amplamente usado de roupas masculinas. Seus trabalhos tinham grande aceitação popular e lhe pagavam bem. Teve 21 adaptações diferentes de suas obras encenadas no palco entre 1896 e 1915. Cunhou frases e conceitos que ficaram célebres como “busca do todo-poderoso dólar”, “a caneta é mais poderosa que a espada” e “morador no limiar”. Depois de sua morte houve uma queda acentuada em sua reputação, e atualmente não é tão lido como no passado.

Produziu também novelas históricas e várias peças teatrais. Sua estréia literária aconteceu aos dezessete anos, com um poe­ma de toque exótico e aventureiro — Ismael: An Oriental Tale, with Other Poems — elogiado por Walter Scott. Publicou depois outras obras poéticas e de ficção que não ti­veram boa acolhida pela crítica, e só com a publicação de The Last Days Of Pompeii, em 1834, Bulwer-Lytton obteria reconhecimento como romancista de gabarito internacional.

Além de político destacado e escritor de sucesso foi também ocultista praticante, interessado nos mais diversos fenômenos paranormais, e seu interesse pela magia e pelo espiritualismo o levaram a conhecer o célebre ocultista francês Eliphas Lévi. Portanto, não é por acaso que alguns de seus escritos, como”Zanoni”, contém noções esotéricas e rosacrucianas. Diz-se também que ele teria sido membro da Irmandade Hermética de Luxor, ultra-secreta sociedade rosacruciana que, segundo autores esotéri­cos, teve um papel importante na política, na cultura e no espiritualismo do Século XIX. Mas em público o escritor não costumava falar de sua relação com os fenômenos psíquicos, embora na sua autobiografia se encontrem referências ao médium Douglas Home e a algumas sessões espíritas, junto com o seu filho. Nada mais natural, portanto, que o misticismo e o sobrenatural tenham inspirado vá­rias obras do novelista, em especial “Zanoni” (1842), “Uma estranha história” (1862) e “A casa e o cérebro” (1859).

Teve uma vida conjugal turbulenta: em 1827, casou-se com Rosina Doyle Wheeler (1802-1882), uma notável beldade irlandesa, mas contra a vontade de sua mãe, que retirou sua mesada, forçando-o a trabalhar para viver. Tiveram dois filhos, Lady Emily Elizabeth Bulwer-Lytton (1828-1848) e (Edward) Robert Lytton Bulwer-Lytton, 1º conde de Lytton (1831-1891) que se tornou governador-geral e vice-rei da Índia britânica (1876-1880). Seus escritos e trabalhos políticos atrapalharam o casamento e sua infidelidade amargurou Rosina. Em 1833 eles se separaram litigiosamente e em 1839 Rosina publicou Cheveley, ou Man of Honor, uma ficção quase difamatória satirizando a suposta hipocrisia de seu marido. Em 1858, quando Bulwer-Lytton era candidato a parlamentar em Hertfordshire, ela o denunciou durante a campanha. Ele retaliou ameaçando seus editores, retendo sua pensão e negando-lhe acesso a seus filhos. Finalmente, ele a internou num asilo para doentes mentais, mas ela foi libertada algumas semanas depois, após um protesto público. Tudo isso ela narrou no seu livro de memórias, A Blighted Life (1880), chamando o ex-marido de um “homem perverso de grande talento e recursos”, “falso, cruel, astuto e inescru­puloso”, e por vários anos ela continuou atacando o seu caráter. Rosina era uma escritora de talento e publicou quatorze romances, um volume de ensaios e um volume de cartas.

A reputação que Bulwer-Lytton conquistou para a poste­ridade é ilus­trada pela criação, em 1982, de um concurso anual de ficção que leva o seu nome, destinado a eleger os… piores escritores de língua inglesa! O Bulwer-Lytton Fiction Contest, concebido pelo Prof. Rice do Departa­mento de Inglês da San Jose State University, tem como objetivo simples­mente premiar a primeira frase do pior de todos os romances pos­síveis. O concurso foi inspirado por essa frase de abertura clássica de Lytton em seu romance de 1830, Paul Clifford: «Era uma noite escura e tempes­tuosa, e a chuva caía em torrentes (…).»

Entre as muitas qualidades como escritor, merece destaque seu domínio da linguagem, seu talento para estruturar frases e descrever imagens e cenários, e sua capacidade de misturar diferentes estilos literários de uma maneira a prender o interesse do leitor. No Brasil, suas obras mais conhecidas e que tiveram incontáveis edições foram Os últimos dias de Pompéia e Zanoni.

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