Pitacos de um autor polêmico

Coletânea reune textos de Albino Forjaz
de Sampaio, lançamento que coincide com
o 70º aniversário de sua morte

Texto de Bira Câmara

Albino Forjaz de Sampaio foi um dos mais importantes e polêmicos escritores  portugueses da primeira metade do século XX. Dia 13 de março deste ano completará exatos 70 anos de sua morte, e ainda hoje sua obra continua a cativar leitores no Brasil, como o atesta as sucessivas reedições de seu livro mais conhecido, Palavras Cínicas.

Curiosamente, Forjaz de Sampaio era um autor que «ninguém» lia mas que esgotava edições atrás de edições. Dos escritores portugueses do século passado, foi um dos mais fecundos, o mais arrojado e quem manejou com mais talento a prosa viva e vibrante de cronista.

Albino começou a sua produção em 1901 com um livreto de poesias, Violáceas, e publicou mais cinco opúsculos até lançar em 1905 Palavras Cínicas, livro que foi, literariamente, a sua estréia na literatura portuguesa e que o tornou conhecido do grande público. Todas as suas primeiras produções até então foram em verso e, segundo críticos, «bem fez Forjaz de Sampaio em pôr de parte as Musas que lhe eram avessas e enveredar pela prosa onde é Mestre, como os melhores da sua geração.» (1)

Se Palavras Cínicas provocou escândalo e celeuma no seu lançamento, Crônicas Imorais foi motivo de vários aborrecimentos para o autor por ter sido achada sobre a mesa de um suicida, cheia de anotações. O infeliz era um conhecido boêmio de Lisboa, Dr. Alberto Costa, o que contribuiu para a notoriedade desta Crônicas

Desde suas primeiras obras em prosa, Albino mostrou talento, erudição, agudo senso de humor, e aquela divina centelha da palavra que encanta, deleita e comove. Seu texto foi criticado pela «ausência completa de consciência social», mas pelo menos no livro Vidas Sombrias vemos um Albino cheio de piedade e amor, retratando as tragédias dos miseráveis, dos pobres, dos famintos e deserdados, uma análise feita com raios X dos desgraçados da sociedade, mas realizada com talento e com piedosa ternura. Obra de «um sonhador e de um filósofo, de um poeta e de um analista, livro humano, livro onde a verdade canta e ri e chora toda uma grande tragédia de sofrimento.» (2) Outras obras não lhe ficam atrás, como Gente da Rua (novela nos moldes da escola realista), Lisboa Trágica, Avalanche.

A linguagem crua e incisiva de Albino, cheia de ousadias e adjetivação, marcam a individualidade definida de um escritor talentoso, que se impôs perante os escritores do seu tempo, criando um estilo próprio e uma construção muito peculiar e fora dos padrões e clichês dos autores de seu tempo.

Brochura, 140 páginas, 13,5 X 20 cm. Ilustrada. Seleção e prefácio de Marcos T. R. Almeida

Se vivesse nos dias de hoje por certo Albino seria rotulado politicamente incorreto, pois suas crônicas tratam com humor ácido temas como religião, moral, amor, além de falar das mulheres num tom demasiado cáustico.

Esta coletânea organizada por Marcos T. R. Almeida tem um pouco de tudo da vasta obra de Albino, reunindo algumas crônicas e prefácios do autor, que servirão para o leitor brasileiro — que leu dele apenas Palavras Cínicas — fazer melhor juízo da sua produção literária.

Notas:
(1) João Paulo Freire (Mário), «Albino Forjaz de Sampaio (Escorço bio-bibliográfico)», pág. 43, Ed. Santos & Vieira, Lisboa, s/d.
(2) Idem, pág. 97.

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