Albino Forjaz Sampaio, um autor politicamente incorreto

Albino Forjaz de Sampaio (1884-1949) foi autor de um dos livros mais vendidos do século XX em Portugal — Palavras Cínicas (1905) — que teve 46 edições até a sua morte.

Texto de Bira Câmara

Recebida com ódios e aplau­sos, Palavras Cínicas le­vou o jovem escri­tor à noto­riedade, tornando-o co­nhe­cido até no Brasil. Es­critor profícuo, consagrou-se no mun­do literário de sua épo­ca com uma extensa e signi­ficativa produ­ção. Mesmo assim o seu nome ficou in­delevelmente asso­ciado a este livro.

Obra pessimista, herética, anticlerical, blas­fema, imoral, certa­men­te ain­da chocará mui­ta gen­te. Mas ain­da as­sim, descontando-se os exage­ros e alguns disparates, as mentes mais lúcidas hão de reconhecer as muitas ver­dades espalhadas nela.

Palavras Cínicas foi publicado pela primeira vez em 1905, obra de estréia em prosa do, então, jovem e desconhecido jornalista e poeta português Albino For­jaz Sampaio. O impacto deste livro, escrito num estilo “scho­pen­hauerea­no” tornou-o conheci­díssimo e rendeu-lhe muitas críticas. Cândido de Figueiredo referiu-se à obra como “livro pessimista e blasfemo, de um moço laborioso, inteligente e audaz”. Em Portugal, até a morte de Albino em 1949, saíram mais de 40 reedições de Palavras Cínicas. Sua fama atravessou o Atlântico e ela foi muito lida e comentada também no Brasil.

Suas produções poéticas anterio­res, consideradas pela crítica em geral como incipientes, foram cha­madas pelo próprio autor — à maneira de Vítor Hugo — de “as asneiras que eu fazia antes de nascer”. Portanto, pode classificar-se as Palavras Cínicas como “o primeiro livro de Forjaz de Sampaio, aquele que o atirou para o mundo das letras e do escândalo, o que em volta do seu nome concitou mais ódios e aplausos, o mais discutido e o mais vendido também” (*).

João Paulo Freire, autor de um ensaio crítico sobre ele, considera Palavras Cínicas “o condimento das almas depravadas pelo vício, derrancadas pela miséria ou espezinhadas pelo egoísmo” e só pode fazer sentido para aqueles que negam a existência de Deus. (**). Ainda, segundo Freire, “é um livro onde se encontra muita verdade, mas que os palavrões e as blasfêmias inutilizam para a crítica sã, justiceira, imparcial”.

Pela mensagem negativista de sua obra, Forjaz de Sampaio poderia ser jus­tificadamente considerado como um dos mais perversos monstros morais do seu tempo. Mas a impressão que deixou para muitos críticos é que esta obra não visava outro resultado a não ser torná-lo conhecido, odiado, comentado, discutido. O que de fato ele conseguiu.

Os fracos de espírito e as almas religiosas podem chocar-se com as suas blasfêmias e a linguagem crua, mas qualquer pessoa de bom senso há de perguntar-se: será que o autor acredita de fato naquilo que escreveu? Pode alguém com esta filosofia de vida levar uma existência normal e não se matar?
Muitas afirmativas do escritor são frases prontas, cuja única intenção só pode ser provocar escândalo, chocar ou fazer gozação, como esta:

«Não ames nem creias. Todo o homem que ama é homem perdido, e todo aquele que crê nunca será ninguém.»

O livro é todo recheado de citações: Turgueniev, d’Annunzio. Gorki, Shakes­peare, Camões e, é claro, Schopenhauer. Sampaio tentou subverter a moral vigente, investindo contra o clero e as crenças populares, além de deixar clara a sua opi­nião de que ”a vida não vale a pena no mundo em que se vivia”. No entanto, muitas de suas afirmações soam falsas, exageradas, e Palavras Cínicas está mais próximo de uma diatribe juvenil, do que do nihilismo de Scho­penhauer ou de Nietzche (outro filósofo que o influenciou).

Mas em sua defesa temos de lembrar que o próprio Forjaz de Sampaio nunca se reconheceu como escritor mas bradou aos quatro ventos que era um “jornalista levado dos diabos”.

Nas obras seguintes, o humor, o cinismo e a ausência completa de consciência social caracterizaram o seu estilo, esgotando edições atrás de edições. Foi amado e odiado com igual intensidade; um provocador ao estilo de Oscar Wilde. São desta fase os livros Crônicas Imorais (1909), Prosa Vil (1911), Cantáridas e Violetas (1915), Tibério, Filósofo e Moralista (1918), e O Homem que deu o seu Sangue (1921), entre outros.

NOTAS:
(*) João Paulo Freire, Albino Forjaz de Sampaio (Escorço bio-bibliográfico), pág. 51
(**) Idem, pág. 52

Albino, bibliófilo

Albino também traduziu Dores do Mundo, de Scho­pen­hauer e organizou uma antologia de poetas portugueses e brasileiros (da poesia trovadoresca até aos poetas contemporâneos) com poemas sobre prostitutas e a prostituição, O Livro das Cortesãs (1916), em conjunto com o pintor Bento de Mân­tua.

Se conquistou notoriedade pelas heresias, blasfêmias, insultos e escárnios, sua reputação literária foi crescendo com a maturidade através de uma produção respeitável, seja como cronista das mazelas sociais, como escritor naturalista e até como historia­dor da literatura portuguesa.

Em 1920-22, Forjaz de Sampaio publicou o Teatro de Cordel, que até hoje é um dos melhores estudos sobre o teatro português nos séculos XVII, XVIII e inícios do século XIX. Com esta obra, editada pela Academia das Ciências de Lisboa, o autor, até então desprezado e considerado “vulgar e rasteiro” não só adquiriu respeitabilidade no mundo literário mas também foi admitido como Sócio Honorário da mesma Academia.

Tornou-se um bibliófilo apaixonado e passou, então, a produzir obras de investigação literária e de cunho jornalístico como Homens de Letras (1930), a coleção “Patrícia” dedicada aos maiores vultos da literatura portuguesa, publicada a partir de 1924, com quase 30 volumes, e a sua monumental História Ilustrada da Literatura Portuguesa em três volumes.

Até morrer, em 1949, Albino Forjaz de Sampaio mergulhou nos estudos de biblioteconomia, da história do livro e da tipografia.

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.