Virgílio Várzea, ou Naturalismo com sabor decadentista

Escritor catarinense pouco lido e conhecido nos dias de hoje, Virgílio Várzea é classificado pela crítica literária como autor filiado à escola naturalista, admirador confesso de Zola, dos irmãos Goncourt e de Eça de Queirós, entre outros escritores em voga no final do século XIX.

Nasceu em 1863 no Desterro (hoje chamada Florianópolis). Seu pai, português capitão da marinha mercante, viajava pela costa sul do continente e isto explica a predileção pelo mar e a experiência marítima na sua produção literária. Aos treze anos foi enviado para o Rio de Janeiro, para estudar na Escola Naval, onde ficou por três anos e saiu para percorrer o mundo. A bordo do navio Mercedes conheceu o Uruguai, Argentina, Patagônia e Antilhas, e depois, viajando no navio britânico Theodore, conheceu Cabo Verde e passeou
pela Europa. Esteve também na África do Sul, e navegou pelo Oceano Índico. Interrompeu temporariamente as viagens e retornou a Desterro em 1881, onde exerceu vários cargos públicos, trabalhou em serviços burocráticos e iniciou-se no jornalismo e na literatura.

Foi Promotor Público em São José e Secretário da Capitania dos Portos e Professor em Florianópolis. Na sua terra natal reencontrou colegas de escola que ensaiavam os primeiros passos na imprensa catarinense, entre eles Cruz e Souza. A juventude letrada da cidade se empolgava com ideias de modernidade, progresso, materialismo e ciência, era abolicionista e favorável à república. A partir de 1882, com a participação de Várzea e Cruz e Souza, estes jovens começaram agitar o marasmo da província com uma cruzada cultural contra o romantismo, defendendo o que chamavam a “Ideia Nova”, a renovação estética da literatura. Autodenominavam-se “guerrilheiros”
e deram ao movimento o nome de “Guerrilha Literária Catarinense” (1882-1887). Para divulgar suas ideias, fundaram e dirigiram jornais como A Tribuna
Popular, O Colombo e o periódico satírico O moleque.

Eleito deputado em 1892, não concluiu o mandato e mudou-se para o Rio de Janeiro, onde viveu até sua morte em 1941. Publicou seu primeiro livro de poesia em 1884, “Traços Azuis”. Um ano depois, em parceria com o amigo
Cruz e Sousa, lançou o volume de contos e crônicas “Tropos e Fantasias” (1885).

Várzea correu o mundo a bordo de embarcações de várias nacionalidades e conheceu portos de todos os continentes. Graças a essas experiências de juventude colheu histórias, paisagens e tramas narrativas ao longo da vida, o que levou alguns críticos a se referir à sua obra como uma “saga marinhista”.

Seu livro mais conhecido, O brigue flibusteiro (1905), é um romance de aventura em torno da ocupação inglesa da Ilha da Trindade em 1895, em que consolidou seu perfil de escritor da vida marítima brasileira.

Amigo de Cruz e Souza, na década 1890 era mais conhecido que o ilustre poeta. Quando mudou-se para o Rio de Janeiro enfrentou menor resistência e teve acesso mais fácil aos jornais, aos homens de letras e aos editores.

Atualmente, apenas no seu estado natal Virgílio Várzea desfruta de alguma notoriedade. A Academia Catarinense de Letras trabalha pela preservação de seu nome e publicou vários manuscritos inéditos de sua autoria.

Apesar da filiação naturalista, o estilo de Várzea recheado de adjetivações e adverbiações excessivas se opunha ao naturalismo, refletindo nítida influência
decadentista, o que não passou despercebido aos críticos.

Em 1887, Várzea publicou em Portugal seu terceiro livro, “Miudezas” (contos). Oito anos mais tarde, em 1895, com “Mares e Campos”, atingiria o apogeu de
sua obra. Em seguida, publicou também “Contos de Amor” (1901), “Histórias Rústicas” (1904) e “Nas Ondas” (1910), bem como um romance, “George Marcial” (1901), e as novelas “Rose-Castle” (1893), “Em Viagem” (1892), “O Brigue Flibusteiro” (1895), “A Noiva do Paladino” (1901) e finalmente “Os Argonautas” (1905). Segundo os críticos, os textos mais longos de Várzea não se equiparam em qualidade aos seus contos.

Participou também da comissão de tradutores da edição Brasileira das Sagradas Escrituras (Bíblia Sagrada).

Com exceção de “O Brigue Flibusteiro”, publicado em 1951 pela coleção Saraiva, suas obras não foram mais reeditadas desde 1910. “Mares e Campos” teve uma reedição faxc-similar pela Fundação Catarinense de Cultura (FCC), em 1991. Várzea deixou um livro de contos inédito, “O Rouxinol Morto”, que teria sido destruído a pedido dele.

Desiludido após quatro candidaturas mal sucedidas ao posto de imortal na Academia Brasileira de Letras, afastou-se precocemente da literatura.

Apesar de filiado à corrente naturalista, em Os argonautas Virgílio Várzea reconta com sabor decadentista a saga de Jasão em busca do Velocino de Ouro. Este texto de Virgílio Várzea, verdadeira raridade literária, ficou no ostracismo e não foi reeditada até hoje. Uma obra para poucos e diferenciados leitores, que saberão apreciar a narrativa concisa, burilada com delicada
ourivessaria literária.

Bira Câmara

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