O eterno feminino na obra de Gautier: a mulher como objeto de Arte

Para Théophile Gautier a principal tarefa do escritor é descrever sua própria
loucura e a parede que a arte constrói entre sua consciência e a vida real.

Texto de Bira Câmara

A singular história do lendário rei Candole foi recontada por vários autores ao longo do tempo desde Heródoto; mereceu referência em Platão, uma terceira versão de Nicolau de Damasco, outra de La Fontaine e até foi tema de ópera no século dezenove.

Para melhor compreender o interesse que esta história despertou em Gautier a ponto transformá-la em novela, é preciso lembrar como a figura feminina aparece nas suas principais obras. O tema do «eterno feminino» e da figura da mulher como objeto de arte estão presentes na maioria de suas produções, bem como a figura da «femme fatale», sempre associando amor e morte e a impossibilidade de concretizar o amor na vida real.

Para Théophile Gautier, o amor pela mulher é indissolúvel do amor à arte, o que é, sem dúvida, uma forma de loucura, compreensível e até justificada. A loucura de Gautier, ao focar a mulher apenas como o modelo ideal da obra de arte, é a mesma de seus heróis, e vai muito além.

Como bem observou Annie Ubersfeld em sua tese, Théophile Gautier ou le regard de Pygmalion, «o amor das mulheres, e até mesmo da popular Afrodite, passa para ele, pela materialização física do objeto de amor em objeto de arte, e de objeto de arte em objeto de amor — de amor concreto e físico. Mineralização da carne, animação do objeto de arte, este duplo movimento nutre até o último dia a escrita de Gautier.»

Este é o drama do seu herói: a troca do objeto da arte — objeto mulher — é processado como se a principal tarefa do escritor fosse descrever sua própria loucura e a parede que a arte constrói entre sua consciência e a vida real. Escrever para Gautier é fazer o inventário de suas próprias loucuras, múltiplas loucuras e engendrar umas às outras, espalhando-as como facetas do seu eu nos seus personagens.

A imagem feminina mais adequada para ele é a da estátua feita do mármore de Paros. Assim, pois, a compleição de Nyssia, a esposa do rei Candole, tem justamente a «brancura do mármore e da neve». Todas as mulheres que os seus heróis desejam são, em algum momento da história — vestidas ou nuas, ou seminuas — transformadas em estátuas. Vemos isso no conto Albertus, onde a personagem feminina Madelaine finalmente mostra a D’Albert sua soberba nudez, ou como Clarimonde, em A Morte Amorosa, lembra uma «estátua de mármore de uma antiga mulher no banho». Esta comparação reaparece em Rei Candole, quando Nyssia surge diante de Gygès: «ele pensou ter visto uma estátua aproximando-se dele tão pálida era».

O rei Candole é mais do que um amante da arte esclarecido; ele tem a sorte de ter a arte antiga à mão. Homem feliz e realizado, «o jovem rei adorava pintar e esculpir mais do que ser um monarca, e muitas vezes lhe acontecera comprar uma mesa pelo preço da renda anual de uma cidade». Ele contempla a beleza de sua esposa com um olhar satisfeito, comentando com Gygès a excelência da arte de Daedalus, cujas estátuas andavam e falavam, pois conhecia tudo o que «produziu a arte de escultores e pintores».

O Rei Candole, tela de Jean-Léon Gérôme (1859)

Mas de todos os personagens de Gautier que amam o belo — a bela arte — o mais apaixonado, o mais louco é Tibúrcio, o herói do belo conto O Velocino de Ouro. Gautier lida com ele com uma ironia autorreflexiva e crítica: «a realidade era repugnante para ele e, por viver entre livros e pinturas, aconteceu-lhe não encontrar a verdadeira natureza […]; seus estudos de estatuária antiga, escolas da Itália, a familiaridade com as obras-primas da arte, lendo os poetas, desenvolveram nele uma delicadeza requintada com relação à forma, e lhe teria sido impossível amar a alma mais bela do mundo, a menos que tivesse os ombros da Vênus de Milo.»

Assim, Tibúrcio tem de fugir de Paris para Flandres «à caça da loira». Mas não é uma mulher que ele procura, e sim um objeto de arte. O infeliz não demora muito a encontrar sua «loira», mas, como se poderia esperar, trata-se de uma pintura. Esta é a Madalena Descida da Cruz de Rubens, na Catedral de Antuérpia: «Ele deixou a igreja carregando em seu coração a seta farpada do amor impossível: finalmente encontrou a paixão que procurava, mas foi punido por onde havia pecado: ele amava demais pintar, estava condenado a amar uma pintura». E com relação a seu herói, Gautier tem uma fórmula extrema: «A mulher é para ti uma estátua morna.»

A morte aparece como imagem da arte, pois a imagem da arte é a própria imagem da morte. Um não é o outro, mas o artista e o amante podem trocá-los. Há uma loucura profunda, contagiante, que a escrita de Gautier leva deliberadamente em conta.

Este é talvez o símbolo da aventura do rei Candole, amando a beleza de sua esposa como uma obra de arte, e morto por ela: «e quando Nyssia, deixando cair seu último véu, caminhou até a cama, branca e nua como uma sombra, Gygès pensou que a morte tinha cortado os laços de diamante […] e veio em pessoa para ceifar Candole.» Ao oferecer ao amigo a contemplação da nudez de sua mulher, o rei expressa seu desejo louco de não apenas sobreviver, mas acima de tudo fazer a beleza sobreviver.

A loucura particular de Candole é o desespero de não poder guardar por toda a eternidade a memória da beleza perfeita que ele abraça: assim, sobreviverá, um pouco, na memória de seu amigo Gygès.

Para Annie Ubersfeld o sonho de Candole está presente em todo o trabalho de Gautier, e a referência autobiográfica nas páginas de O Velocino de Ouro sugere que o escritor se revela aqui com uma clareza ingênua: «Um sonho confessado tão francamente pode ser o reflexo de outro desejo sobre o qual só podemos fazer conjecturas. Tal desejo de eternidade, um sonho tão estranho de conservação, de mineralização da beleza, pertence talvez mais ao ódio pela vida que pela morte. Requer um amor singular dos inertes para sonhar com o beijo dos mortos, o abraço de uma estátua, e até o beijo de uma flor.»

Enquanto Tibúrcio era capaz de pintar ingenuamente, Candole, que não é pintor nem escultor, permanece perpetuamente à margem de seu desejo; o cerne de sua loucura é desejar a arte, um fator de imortalidade, sem ter se dado os meios para conquistá-la. E sua loucura é menos sobre querer compartilhar a beleza de sua esposa com um «amante iluminado» do que desejar eternizar uma beleza que é perfeita demais. Candole não pode criar a pintura ou a estátua, e Nyssia não quer ser um modelo. Ao admirar a beleza da mulher nua ficava absorvido em uma contemplação muda, «parecia esboçar algum projeto de mesa, e ele teria permanecido assim durante horas, se Nyssia logo não se cansasse de ser modelo, refletindo com frieza e desprezo que tais divertimentos eram indignos da majestade real e contrários às leis sagradas do casamento.» Nyssia não quer ser eternizada pela arte; mulher «normal», ela quer a vida e o poder imediato: a sobrevivência como um objeto de arte não lhe interessa.

«É uma estátua que eu fiz você ver e não uma mulher», chora Candole para Gygès; mas quando Gygès vê Nyssia nua avançando para o marido que ela vai matar, é a morte em pessoa que ele contempla. E arte é morte, no universo de Gautier, que dizia que para não morrer é preciso se matar no trabalho, encerrar-se nele: a arte é uma cerca, a arte é uma tumba; é uma morte que torna possível escapar da morte, mitigar-se contra ela. A «artística» neurose de Gautier transfere-se para as suas criaturas e ele proclama que toda neurose é, ao mesmo tempo, sofrimento e bálsamo, um mal e um remédio.

Certamente, para todos os escritores do século XIX, incluindo Gautier, a loucura da arte é uma compensação para o fracasso da história que é objeto de tantos sentimentos contraditórios. Mas para Gautier é outra coisa, a loucura é a defesa vital: neste mundo horrível, horrível não só pelo triunfo da mesquinhez burguesa, a arte é o único lugar onde a morte não penetra. Victor Hugo sabia disso, e perdoou sua incapacidade de pensar a arte como coisa política porque entendeu esta ação de «retaguarda», desesperada, para fazer da arte uma defesa contra o horror da realidade.

Fontes:

Annie Ubersfeld, Théophile Gautier ou le regard de Pygmalion em https://www.persee.fr/doc/roman_0048-8593_1989_num_19_66_5627
Jiri Sramek, Les «Mortes Amoureuses» de Théophile Gautier
Théophile Gautier, Novellas, Ed. Garnier s/d, tradução de Salvador de Mendonça
Théophile Gautier,O Rei Candaule, Ed. Garnier s/d, tradução de Salvador de Mendonça

 

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