A Superstição Socialista

Uma obra que refuta as principais falácias dos socialistas teóricos e demonstra a vacuidade dos argumentos supostamente científicos do socialismo, à luz da ciência positiva, da psicologia, da história, da economia e do direito.
Texto de Bira Câmara

 

Escrita em 1895, esta obra do barão Raphael Garofalo (1851-1934) ainda mantém até hoje surpreendente atualidade. Célebre jurista e criminologista italiano, Garofalo foi representante da Nuova Scuola, como ficou conhecida na sua época a voga do positivismo na criminologia. Aliás, foi ele quem cunhou este termo, que se tornou de uso corrente na área jurídica, a partir da publicação de sua obra Criminologia: estudo sobre o delito, sobre suas causas e a teoria da repressão (1885). Juntamente com Lombroso e Enrico Ferri, o barão é considerado um dos fundadores da Escola Positivista na Itália.

Em A Superstição Socialista, Garofalo refuta as principais falácias dos socialistas teóricos e demonstra a vacuidade dos argumentos supostamente científicos do socialismo, à luz da ciência positiva, da psicologia, da história, da economia e do direito. Um dos alvos desta obra são as ideias de August Ferdinand Bebel, socialista alemão, e de Ferri, que além de autor de obras clássicas sobre criminologia, foi também político filiado ao Partido Socialista Italiano e editor do jornal Avanti!, órgão oficial do partido.

O que torna esta obra atual é que, embora o movimento revolucionário em nossos dias tenha adotado um discurso mais maleável, suas propostas continuam sendo basicamente as mesmas, assim como a essência de seus argumentos, que soarão muito familiares ao leitor brasileiro. Garofalo nos fala das agitações promovidas pelos coletivistas e a doutrinação socialista através da imprensa, que testemunhou em sua época, e não há como deixar de comparar esses eventos com o que vem acontecendo no Brasil nas últimas três décadas.

No final do século XIX e início do XX, estas convulsões prepararam terreno, na Europa, para o triunfo comunista na Rússia, o surgimento do fascismo na Itália e do nazismo na Alemanha. Mussolini era socialista, assim como o partido de Hitler. E não deixa de ser curioso que Ferri, quando Mussolini chegou ao poder, tornou-se um de seus mais célebres apoiadores.

A maior novidade do discurso esquerdista, depois da falência da URSS, das matanças promovidas na China, Coréia, Cuba e no leste europeu, é que suas lideranças reconhecem que ainda não sabem como será a utopia socialista. Mas não há nada de novo nesta desculpa; Garofalo, falando dos socialistas de sua época já observara que «lhes é impossível determinar a futura forma de organização social, de que não têm nem são capazes de ter, como declaram, uma ideia precisa. O que quer dizer que desejam a revolução pela revolução; destruir o existente é por agora o seu fim». Como sempre mentem, pois sabem muito bem o que farão quando tiverem o poder total nas mãos: repressão, censura à imprensa, perseguição aos oponentes, fuzilamentos e, claro, a destruição da economia do país como vem acontecendo na Venezuela.

Voltaire, que em matéria de história não é fonte fidedigna, põe na conta do cristianismo o massacre de mais de nove milhões de pessoas (*) desde a sua origem até século XVIII. Nesta conta estão incluídas as mortes devidas às cruzadas, às perseguições e guerras religiosas, à Inquisição, aos cismas, etc. Obviamente não podemos justificar toda esta matança ao longo de cerca de 1.500 anos, mas temos que reconhecer que esta cifra é uma bagatela diante dos 120 milhões de pessoas assassinadas por Stalin, Mao, Pol Pot, Fidel e outros paladinos da esquerda em menos de um século. Detalhe: o comunismo continua matando em Cuba, Venezuela e Coréia do Norte.

Diante destes números, é espantoso que os militantes de esquerda continuem a defender fanaticamente suas ideias. Isto só pode ser explicado porque a mentalidade coletivista se reduz a um ato de fé e a um estado mental em que o senso crítico e a razão ficam eclipsados. Portanto, comunismo e socialismo se enquadram na categoria de seitas, ou, como Garofalo define, de superstições.

Uma das maiores contradições da militância esquerdista é que grande parte dos elementos que fazem parte de suas fileiras, desde a época do barão, provém da classe burguesa e do proletariado intelectual, médicos, advogados e engenheiros, artistas obscuros, jornalistas, profissionais liberais desempregados, frutos de uma educação que lhes fez criar desejos e ambições incompatíveis com a própria capacidade e a realidade do mercado de trabalho na sociedade capitalista, quanto mais numa eventual sociedade socialista! Nas palavras de Garofalo, «amargurados, desiludidos, repletos de inconfessáveis invejas, são esses os verdadeiros e perigosos agitadores das multidões proletárias», que não se dão conta de que lutam pela implantação de um sistema que jamais atenderá suas reivindicações. Não é o perfeito retrato dos militantes de esquerda no Brasil, zelosamente doutrinados nos bancos escolares desde a mais tenra idade de uns vinte anos para cá?

A superstição socialista
Barão Raphael Garofalo
Reedição da tradução portuguesa da Livraria Clássica Ed. (1904) por Julio de Mattos (1856-1922). Atualização ortográfica de Bira Câmara.
Brochura, 192 páginas, formato 13,5 X 20,5 cm.

Garofalo, fiel ao credo positivista, é um crítico da educação livresca que não prepara os cidadãos para as ásperas lutas da vida, atulhando o cérebro das crianças com informações inúteis. E propõe reformar por completo este ensino, dando-lhe um caráter mais prático e tornando-o uma disciplina da inteligência e da vontade, para defender as sociedades modernas contra a eficácia da sedução socialista. É bom lembrar que assim que tomaram o poder em 64, os militares imbuídos da filosofia positivista fizeram a reforma do ensino, extinguindo os cursos clássico, científico e normal. Antes disso, as escolas públicas brasileiras tinham um alto nível de qualidade que as colocavam entre as melhores do mundo. E o resultado desta reforma foi degradar o ensino, com a colaboração dos intelectuais comunistas que tomaram conta do Ministério da Educação e Cultura…

O tradutor desta obra, Júlio Xavier de Mattos (1856-1922), médico, cirurgião e psiquiatra, foi um expoente da corrente positivista em Portugal. No seu prefácio ele faz questão de registrar sua divergência de Garofalo quanto à questão do ensino elementar religioso como antídoto contra a disseminação das ideias socialistas. Mas concordamos com o barão, quando postula que «o ensino moral não tem sentido ou, pelo menos, eficácia, sem uma base religiosa». Mattos, porém, considera a sua defesa do ensino religioso nas escolas perniciosa e inconsequente com «a vigorosa crítica do autor ao socialismo».

Numa precipitada análise desta questão, conclui que o cristianismo igualitário e nivelador faz a apologia do coletivismo, erroneamente confundindo a fraternidade pregada por Cristo com socialismo. Se isto fosse verdade, os comunistas não teriam eleito a religião como um dos principais alvos de sua fúria demolidora. Divergimos do tradutor neste ponto, pois observamos que pessoas com sólida crença religiosa não se deixam seduzir facilmente pelas ideias socialistas. Em 1964, quando a famigerada teologia da libertação ainda não tinha se disseminado entre os cristãos no Brasil, a Igreja desempenhou um papel fundamental na mobilização popular contra o perigo comunista. Portanto, neutralizar a sua influência junto às massas tornou-se uma obsessão da esquerda brasileira, sem o que possivelmente jamais chegariam ao poder com FHC, Lula e Dilma.

Para muitos, a solução das desigualdades sociais está na reforma moral e religiosa. Clemenceau resumiu a questão ao dizer que «no dia em que os cristãos de nome forem cristãos de fato» estará resolvido o problema social. Nada mais há que acrescentar a estas sábias palavras.

Bira Câmara

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(*) Voltaire, Deus e os Homens, pág. 132.

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