A Ondina tupiniquim de Bernardo Guimarães

Regina, “a filha das ondas”, personagem central de A Ilha Maldita, romance de Ber­nardo Guimarães, é uma inspirada recriação da obra imortal de La Motte-Fouqué — Undine, condimentada com alguns ingredien­tes ao gosto dos românticos: mistério, magia, paixão e crime.
(Texto de Bira Câmara)

Autor de uma respeitável obra literária que abran­ge poe­sia, romance, contos e teatro, Ber­nar­do Guimarães é conhecido até hoje, sobretudo, pelo livro A Escrava Isaura, que mereceu até versões para televisão e cinema. No entanto, a maior parte de sua produção com o passar do tempo acabou relegada a segundo plano.

Sobre a qualidade de sua obra de ficção há controvérsia entre os críticos, e alguns o veem como um “romancista menor” e até medíocre, como Haroldo de Cam­pos. Para muitos foi maior poeta do que fic­cionista, ressalva que se estendeu à maioria dos escritores do período romântico. Mas em questão de gosto quase sempre o que é elogiado pela crítica não corres­pon­de ao gosto popular… O fato é que Bernardo Guimarães, em Minas, foi o mais admirado, lido e conhecido escritor de sua época. Seja lá qual  for a opinião dos críticos, ninguém pode negar que Ber­nardo era um hábil contador de histórias, e isso fica evidente no seu romance A Ilha Maldita, rotulado por ele como “fantástico”. Ainda hoje, com certeza, é uma obra que pode surpreender o leitor pela sua temática pouco usual entre os românticos no Brasil.

A Ilha Maldita
Ber­nardo Guimarães Brochura, 160 páginas, formato 13 X 20 cm. Prefácio e atualização ortográfica de Bira Câmara.

Poderíamos considerar este romance singular de Guimarães uma releitura de Undine, de La Motte-Fouqué. Mas não é uma mera imitação. A misteriosa origem de sua On­dina tropical nunca fica explícita, e o elemento sobrenatural é habilmente atribuído à superstição dos pescadores da aldeia onde ela vive, e que não a compreendem.

O ima­ginário do escritor era povoado de duendes, fadas e outros per­sonagens míticos, que aparecem em algumas de suas produções poéticas. Vide o seu poema A Orgia dos Duen­des.

A enigmática “filha das ondas” de Bernardo é uma Ondina tropical, presa por laços misteriosos ao mar e a uma ilha mágica.

Mas ela não encarna apenas esta personagem mítica trans­ladada da paisagem setentrional para os trópicos; é também a fem­me fatale, que leva à desgraça todos aqueles que se apaixonam por ela.

Entre os ultrarromânticos, o amor andava de mãos dadas com a tragédia e a morte, como um sonho que jamais se concretiza no mundo real e possível somente num plano irreal e utópico.

Assim, a filha das ondas de Ber­nardo carrega consigo o es­­tigma da mulher fatal, uma maldição que espalha infelicidade a todos que a cercam, e, no final das contas, volta-se contra si própria. Amada por todos, incapaz de amar, torna-se vítima de sua própria maldição, e para ela o amor também ter­mi­na em tragédia.

Esta temática é atemporal, e reapareceu em incontáveis obras literárias ao longo do tempo. Moderna­mente, a mulher como instrumento de perdição foi um dos temas da obra de Wladis­law Reymont, escritor polonês que num de seus romances escreveu: “para o verdadeiro artista a mulher é o seu mal, o demônio destruidor, o seu vampiro”. E não é desta forma que a mulher é representada por muitos autores do século deze­nove?

A história tem todos os ingredientes que cativam o leitor aficionado a uma boa história de mistério: assassinato, vingança, magia, uma mulher enigmática, e a narrativa fluente de um grande contador de histórias. É tudo o que se espera de um gênero pouco apreciado aqui no Brasil, a chamada “literatura de entretenimento”. Um romance para ser lido despre­ten­sio­samente com o único propósito de proporcionar ao leitor momentos de prazer e distração é algo que geralmente provoca desgosto nos críticos. E por causa deles, muitas vezes os editores não o reeditam, para nosso azar…

O romance teve poucas reedições e não é das obras mais conhecidas do autor, mas teve uma versão em história em qua­drinhos, publicada na coleção “Álbum Gigante” (Nº 22), em 1956, com capa do ilustrador Antonio Euzébio e quadrinização de Aylton Thomaz.

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Bernardo formou-se na Faculdade de Direito de São Paulo, em 1851, e nesta cidade ficou amigo dos poetas Álvares de Azevedo e Aureliano Les­sa. Junto com outros estudantes, os três fundaram a lendária Sociedade Epicureia, célebre pelas suas orgias em que procuravam reproduzir o comportamento desregrado de By­ron.

Desde que se matriculara no curso de Direito, em 1848, Bernardo distinguiu-se como um brilhante escritor e grande amante da bebida. Vários escritores se reuniam na casa dele para ceiar e fazer brin­des, e nessas ocasiões cada um era obrigado a fazer um dis­curso bestia­lógico. Nesse gênero Bernardo era inigua­lável, a ponto de Haroldo de Campos sentenciar que isso era o que ele melhor sabia fazer… A poesia burlesca, satírica e descabe­lada faz de Bernardo Guimarães, segundo Campos, um pre­­cursor brasileiro do sur­realismo.

De tanto abusar do álcool, acabou comprometendo sua saú­de e foi obrigado a parar de beber; seu médico receitou-lhe gotas de éter para acalmar as cólicas biliares que sentia, mas o escritor ficou viciado no entorpecente e passou a tomá-lo em cálices…

Depois de se formar voltou para Minas, e foi morar em Ou­ro Preto. Desentendeu-se com o presidente da Província e, para se vingar, colocou a farda presidencial num burro e logo de manhã o amarrou à porta do palácio, para ser visto por toda a população.

Admirador de Byron, Bernardo nunca pode viajar pelo mun­­do como seu ídolo. Para descrever outras paisagens que não fossem as do interior de Minas, onde vivia, recorria a al­guns artifícios para excitar sua imaginação. Embriagado de éter, encerrado em sua casa, pagava a um garoto para simular tempestades atirando papéis para o ar, agitar uma colcha verde no chão imitando ondas do mar, ou se instalando numa rede presa ao teto, que o moleque balançava furiosamente… Deve ter sido assim que ele procurou inspiração para descrever as cenas marítimas de A Ilha Maldita!

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A Escrava Isaura, publicado pela primeira vez em 1875, tornou-se um best-seller internacional cem anos depois de sua pu­blicação, graças à novela da Rede Globo de Televisão (1976-1977). Expor­tada para cerca de 150 países, na China A Escrava Isaura teve uma audiência de mais de 1 bilhão de pessoas. O livro foi publicado naquele país e vendeu pelo menos 300 mil exemplares!

Mas para os críticos o melhor livro de Bernardo Guimarães é O seminarista (1872), que põe em discussão o celibato dos padres. O personagem central, Eugênio, filho de um fazendeiro de Minas Gerais, é obrigado pelo pai a ser padre e a desistir de sua ama­da. Tenta abandonar o seminário, mas o pai dele inventa que sua namorada se casou. Eugênio se torna padre, e então volta a sua cidade para rezar a sua primeira mis­sa. Ao entrar na igreja enlouquece ao deparar com o cadáver da sua amada, que morrera de­pois de uma grave enfermidade.

Bernardo Guimarães é considerado um escritor regio­nalista, mas nunca deixou de lado o seu gosto pelo fantástico e pelo macabro, que aparece em A Ilha Maldita e outras produções como A Dança dos Ossos, A Garganta do Diabo e Orgia dos Duendes.

Também produziu poemas escato­lógicos e considerados pornográficos como A Origem do Mênstruo e O Elixir do Pajé, publicados clandestinamente em 1875.

Bernardo Guimarães nasceu e mor­reu em Ouro Preto (1825 —1884). Foi o patrono da Cadeira nº 5 da Academia Brasileira de Letras.

Em 1852, logo depois de se formar, tornou-se juiz municipal de Catalão, em Goiás, cargo que exerceu até 1854. Mudou-se para o Rio de Janeiro em 1858 e no ano seguinte trabalhou co­mo jornalista e crítico literário no jornal Atualidade.

Em 1861, reassumiu o cargo de juiz municipal de Catalão. Voltou pa­ra o Rio de Janeiro em 1864; dois anos depois foi nomeado professor de retórica e poética do Liceu Mineiro, de Ouro Preto; casou-se em 1867; lecionou latim e francês em Queluz (Minas Gerais, em 1873). Foi homenageado pelo imperador Dom Pedro II em 1881, e morreu pobre em 10 de março de 1884.

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