A origem Druida da Maçonaria, segundo Thomas Paine

A partir do século XVII, houve na Inglaterra um renascimento da cultura celta e um crescente interesse pela religião druídica. Neste caldo cultural foi fundada a Maçonaria inglesa, embora Paine defendesse uma origem mais remota: a arcaica religião dos Druidas.
Texto de Bira Câmara

Thomas Paine, um dos “Pais” da nação norte-americana, escreveu um opúsculo — hoje em dia extremamente raro e pouco conhecido até pelos próprios maçons — ligando a origem da Maçonaria à antiga religião celta dos Druidas. Publicada na Inglaterra em 1812, a sua tese, historicamente falando, na verdade não corresponde ao que se conhece sobre as origens do movimento político e maçônico europeu nos anos 1790-1810. Esta, pelo menos, é a opinião dos especialistas no assunto.

Thomas Paine, pintura a óleo por Auguste Millière (1880), baseado numa gravura por William Sharp, após um retrato de George Romney (1792)

Esta hipótese de Paine é melhor compreendida se levarmos em consideração os acontecimentos de seu tempo. E para se entender como e por que ela foi formulada ainda no início do século XIX por um personagem politicamente tão atuante como Thomas Paine, é necessário uma pequena digressão a respeito do cruzamento entre o movimento druida e a maçonaria.

Desde a época de Henrique VIII, houve na Inglaterra um renascimento da cultura celta e um crescente interesse dos eruditos pela religião druídica. Este neoceltismo tinha um cunho político, pois quando Henrique rompeu com a Igreja Católica, libertando o reino da tutela romana, ele incentivou os eruditos a pesquisarem as raízes celtas ou saxônicas, para provar ao Vaticano que seu ato de secessão não era uma ruptura com a «Tradição de seus pais», muito ao contrário.

Henrique VIII forçou ao exílio todas as ordens monásticas católicas de seu reino, e transferiu os arquivos dos mosteiros para a biblioteca real e para a de Oxford, com o objetivo de preservação. Havia muitos documentos relativos a história real do país, e um trabalho de compilação gigantesco deveria ser feito. Para essa missão, o rei estabeleceu em Oxford um colégio de cientistas que adotaram o nome de Antiquarians.

No século seguinte, a revolução de Cromwell (1640) atrapalhou as atividades dos Antiquarians, que tiveram que se ocultar durante vinte anos na universidade de Oxford, enquanto se agregavam ao famoso Colégio Invisível — também localizado em Oxford — que contou entre os seus inquilinos os adeptos da Utopia Rosacruz de Valentin Andreae. Entre eles, Robert Fludd — considerado o pai do Colégio Invisível — Elias Ashmole, John Wilkins, Robert Plot, Thomas Vaughan, John Locke, e mais tarde Isaac Newton.

Ilustração emblemática de um Colégio Rosacruciano, publicada na obra Speculum sophicum Rhodo-stauroticum, em 1618 por Theophilus Schweighardt. A pesquisadora Frances Yates identifica esta alegoria como o Colégio Invisível da Rosa Cruz.

Após a restauração dos Stuarts em 1660, o Colégio Invisível recebeu a missão de fundar a famosa Royal Society.

Os Antiquarians fizeram grandes avanços científicos, principalmente graças ao trabalho de John Aubrey, quem elucidou o “mistério” de Stonehenge até então atribuído aos romanos.

Foram os membros da Royal Society que, combinando desde seu o nascimento a via cristã libertária dos Rosacruzes, com a via mais paganizante e política dos Antiquarians, depois de algumas fases preparatórias irão estabelecer a Franco-Maçonaria em junho de 1717, restaurando a Society of Antiquarism — proibida desde Charles I — em julho de 1717, além de fundar em setembro deste mesmo ano a famosa e prestigiada Ordem dos Druidas.

John Toland

John Toland foi o primeiro Grão-Druida dessa Ordem entre 1717 e 1722. Toland era um filósofo comprometido e polêmico, simpatizante do partido Whig e de suas teses pré-republicanas; católico, depois anglicano, e por fim panteísta à moda de Giordano Bruno e Spinoza. Em seu testamento filosófico de 1720, a obra chamada Pantheisticon, Toland propõe um retorno à antiga sabedoria de um panteísmo platônico, de fundo spinoziano, e usa toda esta nova e revolucionária matéria celta como uma arma educacional. O primeiro inimigo é o imperialismo religioso do Vaticano, por causa de tantos massacres e guerras. O segundo inimigo são os reis despóticos que usam dogmas opressivos para estabelecer um poder injustificado. Os membros da Ordem se empenharam na múltipla e complexa contestação cultural que opunha o Norte ao Sul da Europa. Este neodruidismo cresceu e se diversificou, e hoje é parte de instituições inglesas que envolvem até membros da família real. A Rainha Elizabeth e seu filho Charles, Príncipe de Gales, estão entre eles. Winston Churchill também foi um de seus membros.

Capa da edição de março de 1909, da revista The Druid, publicada pela Antiga Ordem dos Druidas, fundada em Londres, em 1781.

Em 1792, em Primrose Hill, Edward Williams, ou Iolo Morganwg (seu nome druida), criou por cisão a primeira Gorsedd (*) de Gales, retomando os trabalhos paganizantes do oxfordiano John Wilkins (do Colégio Invisível em 1650) e publicou o Mabinogion. Thomas Paine foi o propagador de suas teses para os EUA e convenceu George Washington a fazer uma assinatura da primeira edição desta publicação.

O movimento neodruida aglutinou também ideias progressistas e republicanas do século XVIII, incluindo o debate sobre os direitos humanos. Nesta época conturbada, não era incomum que alguns grupos muito progressistas politicamente falando, tivessem um pé na Maçonaria e outro na ação revolucionária. Os neodruidas estiveram engajados em torno dos valores mais progressistas e anti-imperialistas de seu tempo, e foram todos adeptos dos princípios revolucionários, desde que se relacionassem com a noção de democracia e direitos individuais, e também eram inimigos de todas as formas de obscurantismo.

A origem da Maçonaria, segundo Thomas Paine. Tradução e prefácio de Bira Câmara.
Brochura, 67 páginas, formato 12 X 20 cm., ilustrada.

Paine via a Maçonaria como um movimento progressista, que capacitasse os indivíduos e as nações a enfrentar os poderes pós-medievais nos seus países. O período de independência vivido com George Washington só poderia confirmar este ponto de vista. Também para ele, a matéria científica mais progressista, politicamente falando, era o fruto dos trabalhos dos Antiquarians de seu tempo.

Em sua tese muito pessoal — e muito inglesa em algumas partes —, ele afirma que as raízes progressistas da Maçonaria encontram-se na herança celta, mas ele está se referindo aqui à Maçonaria chamada de “moderna”, pois sobre a mais antiga as pessoas quase nada sabem nos dias de hoje.

Paine, por causa de suas amizades maçônicas, como com Nicolas Bonneville, e suas amizades celtas com personagens como Edward Williams e William Blake, situa-se individualmente em um ponto de convergência entre estas duas tradições. Este pequeno livro é um efeito deste fato e não tem outro propósito além de desenvolver esta sensibilidade

* * *

A tese de Paine sobre as raízes celtas da Maçonaria coincide basicamente com as pesquisas de Charles-François Dupuis, que em 1795 publicou sua monumental obra Origine de tous les Cultes, ou la Religion universelle. Considerada um «verdadeiro breviário de ateísmo filosófico», e apoiada sobre um vasto trabalho comparativo, ele buscou demonstrar a origem comum das crenças religiosas e astronômicas entre os Egípcios, os Gregos, os Chineses, os Persas e os Árabes.

Dupuis concluiu que todas as religiões antigas se estruturavam em torno do simbolismo zodiacal, em que o Sol representa a divindade. Até mesmo o cristianismo não escapa a isto que se apresenta como uma mistificação, «uma fábula com o mesmo fundamento de todas as outras fábulas solares». O Deus do cristianismo tem o mesmo caráter do Deus sol, adorado entre todos os povos sob uma multiplicidade de nomes e com atributos diferentes.

Sua obra teve grande repercussão no início do século XIX e influenciou o trabalho de vários arqueólogos e pesquisadores de religiões antigas. Com certeza Paine também a conheceu.

Os teólogos torceram o nariz para a obra de Dupuis e a ignoraram. A refutação mais eficaz veio através de uma paródia humorística, feita em 1827 por Jean-Baptiste Pérès — que utilizou todos os argumentos de Dupuis para sustentar que … Napoleão era apenas uma «fábula solar» sem fundamento histórico.

Paine, um democrata revolucionário

Thomas Paine (1737-1809), inglês de nascimento (1737-1809), foi para a América em 1775. Na Filadélfia, dirigiu um jornal, no qual escreveu artigos contra a escravidão, e em seguida publicou um livro a favor da independência americana (1776), O senso comum, que teve considerável sucesso.

Entrou para o exército em 1777, mas continuou a escrever e a editar uma série de brochuras, incentivando os exércitos separatistas. Notado por Washington, foi nomeado secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e participou no desenvolvimento desta nova república. Foi ele quem sugeriu seu nome: os Estados Unidos da América.

Paine alcançou grande sucesso com o seu livro Direitos do Homem, na França como na Inglaterra, onde se tornou o livro de cabeceira dos radicais.

Paine, em seguida, retornou a Londres entre 1792 e 1793, e começou a encabeçar o movimento pró-revolucionário; por isso quase acabou preso, mas escapou buscando refúgio em Paris, onde foi recebido como um herói. No final de 1793 recebeu o título de “cidadão francês” e tornou-se membro da Convenção, embora não falasse uma palavra de francês.

Por se recusar a votar a favor da morte do rei, e propor a sua deportação para a América, ele se tornou suspeito e Marat o atacou. Paine foi preso sob o Terror. A morte de Robespierre o salvou e ele encontrou liberdade em 02 de novembro de 1794.

Durante a sua detenção, escreveu o seu famoso Age of Reason (a “Idade da Razão”), um livro anticristão, que advoga o Deísmo, ataca a religião institucionalizada (as doutrinas cristãs), e promove a razão e o livre pensar. Nessa obra, Paine opõe os direitos humanos à pedagogia infantil e culposa das religiões cristãs; ele diz que a humanidade atingiu a sua idade da razão e não precisa mais dar importância ao dogmatismo castrador que nega fundamentalmente os direitos dos indivíduos.

A Idade da Razão provocou um escândalo na Inglaterra e seus antigos amigos americanos também pareciam abandoná-lo. Em seguida, numa série de panfletos perfeitamente injustos, até ao próprio George Washington, a sua carreira política acabou interrompida, assim como qualquer forma de reconhecimento, apesar de seus compromissos positivos assumidos anteriormente.

A convite do presidente Thomas Jefferson, em 1802 ele retornou aos Estados Unidos, e terminou a sua vida muito infeliz, morrendo de um acidente vascular cerebral.

Mas haveria ainda outra aventura póstuma. Um de seus ex-inimigos ingleses, William Cobbett, tardiamente convertido num dos seus defensores mais fervorosos, foi para New Rochelle, violou o túmulo abandonado de Paine e levou para Liverpool o seu esqueleto, para lhe dedicar um monumento que nunca foi construído. O esqueleto acabou deixado em um armário de Cobbett, e desapareceu num leilão público dos seus bens.

No entanto, um monumento foi erguido em memória de Thomas Paine em New Rochelle, em 1839.

Nota:

(*) Gorsedd (Gorseddau no plural) é uma comunidade ou união de bardos modernos. A palavra é de origem galesa, que significa “trono”. Muitas vezes, é soletrado gorsedh em Cornwall e goursez na Bretanha, refletindo as grafias nas línguas Cornish e Bretã, respectivamente. Quando o termo é usado sem qualificação, geralmente refere-se ao Gorsedd nacional do País de Gales, a saber Gorsedd Beirdd Ynys Prydain, que significa “O Gorsedd dos Bardos da ilha da Grã-Bretanha”. No entanto, existem outros Gorseddau, como o Cornish Gorsedh Kernow e o Bretão Goursez Vreizh.
Os Gorseddau existem para promover estudos literários e criação de poesia e música. O Gorsedd Beirdd Ynys Prydain foi fundado em 1792 por Edward Williams — Iolo Morganwg —, que também inventou muito do seu ritual, supostamente com base nas atividades do antigo druidismo celta. Hoje em dia, grande parte do seu ritual tem influência cristã. (Fonte: http://gorsedhkernow.org.uk/)

Bibliografia
Obras consultadas:

Albert G. Mackey, The symbolism of Freemasonry, Clark and Maynard, 1869

Clavel, F.-T. Bègue, Histoire pittoresque de la franc-maçonnerie et des sociétés secrètes anciennes et modernes, Pagnerre Éd., 1844

Copin-Albancelli, La Guerre Occulte — Les Sociètés Secrètes contre des nations, 1925, Libr. Acad. Perrin et Cie.

David Stevenson, Les Origines de la Franc-Maçonnerie — Le siècle écossais 1590- 1710, Éd. Télètes, 1993

Daniel Ligou, Dictionnaire de la Franc-Maçonnerie (P.U.F.)

Gwenc’hlan Le Scouëzec, Considérations sur le druidisme et la franc-maçonnerie, ed. Arbre d’Or, Genève, abril 2005

Pierre Zaccone, Histoire des sociétés secrètes, politiques et religieuses

R. Le Forestier, Les illuminés de Bavière et la Franc-Maçonnerie Allemande, Ed. Slatkine Megarjotis, 1974

Régis Blanchet, Thomas Paine et les Druides du XVIII Siècle, em http://www.carboneria.it/paineintro.htm

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