Byronianos no Brasil: à sombra de Álvares de Azevedo

Noite da Taverna, de Álvares de Azevedo, teve muitas imitações, mas nenhuma chegou nem mesmo a se igualar com ela, caindo no esquecimento, como a quase totalidade da produção em prosa da escola byroniana no Brasil.
Texto de Bira Câmara

Gennesco (1861), romance de Theodomiro Alves Pereira, foi uma das muitas produções em prosa dos adeptos da escola byroniana, claramente inspirada em Noite na Taverna.

Ao contrário dos primeiros românticos, que buscavam inspiração nacionalista ou indianista, e exaltavam a natureza, a pátria e o retorno ao passado histórico, a segunda geração romântica caracterizou-se pela forte inspiração byroniana — cultivando o mal do século, o spleen — e ficou marcada sobretudo pelo pessimismo, tédio, melancolia, sentimentalismo mórbido, busca obsessiva pelo amor e desejo pela morte. Seus principais representantes foram Álvares de Azevedo, Casimiro de Abreu, Junqueira Freire e Fagundes Varela. Dentre eles, sem dúvida, Azevedo foi quem mais encarnou o espírito byroniano na sua produção poética e na prosa. Seus contos macabros serviram de modelo para muitos autores contemporâneos — inclusive Varela —, que acabaram eclipsados pelo brilho do autor de Noite na Taverna e Macário.

Álvares de Azevedo, o maior byroniano no Brasil

Mas os contos de Azevedo sofreram influência também — além de Shakespeare, de Hoffmann e de Byron — da obra do espanhol José Cadalso, Noches Lugubres (1874), a quem cabe o mérito de ter criado a chamada “poesia sepulcral”. O parentesco com Macário fica mais evidente quando se sabe que o texto de Cadalso foi traduzido e publicado no Brasil em 1844. O clima mórbido de Noites Lúgubres caiu no gosto dos ultrarromânticos brasileiros. Escrito na forma de diálogos, este texto curto tem como argumento a obsessão do personagem Tediato em desenterrar o cadáver de sua amada.

Na obra de Cadalso já havia, pois, o germe do espírito romântico, caracterizado pelo cultivo de um estado de alma mórbido e doentio, pela descrença e pessimismo de mãos dadas com o sentimentalismo exacerbado. Estes ingredientes pontuaram não só a obra de Álvares de Azevedo como a de seus imitadores, entre eles o autor de Gennesco, Theodomiro Alves Pereira (1840-1911) que, como Azevedo, também foi acadêmico do curso de Direito em S. Paulo.

Em 1861, no mesmo ano em que saiu o romance de Theodomiro, Fagundes Varella publicava no Correio Paulistano o conto Ruínas da Glória; em 1862, o Diário de Pernambuco estampava o folhetim Contos do Botequim, ou Trindade Maldita, de Franklin Távora, considerado — assim como Gennesco e o conto de Varella — uma imitação de Noite na Taverna. Nenhuma dessas produções ficou para a posteridade, e o romance de Theodomiro foi impiedosamente desqualificado pelo crítico literário Pessanha Póvoa, que sentenciou: “Gennesco, se não fosse uma blasfêmia, seria uma peste literária”.

Embora não tenha sido bem acolhida pela crítica e pelo público, caindo no ostracismo com o passar do tempo, Gennesco parece ter sido reverenciado pelos acadêmicos byronianos de seu tempo. No célebre episódio da Rainha dos Mortos — segundo Pires de Almeida — um estudante, à noite, no cemitério “leu um trecho do Gennesco (…) e outro “um fragmento do Dalmo de Ramos Figueira”. (1)

Enquanto desancou o romance de Theodomiro, Póvoa teceu loas a Dalmo, ou Mysterios da Noite (1863), considerando que se José de Alencar fosse vivo “apertaria a mão de seu autor”.(2)

Apesar da crítica impiedosa a Gennesco, Póvoa não deixou de reconhecer os talentos de seu autor: segundo ele, como orador Theodomiro “tinha um estilo impetuoso”, sua linguagem uma “emoção elétrica”; quando principiava a falar, era monótono, obscuro; depois tornava-se “um raio que atravessa o deserto”.

Anos depois da polêmica sobre Gennesco, Póvoa reconheceu que ele foi o mais orgulhoso e intolerante adversário que encontrou em São Paulo.(3)

Os críticos modernos nem se limitaram a um exame mais atento de Gennesco, por considerá-lo irrelevante, razão pela qual até hoje nunca foi reeditado. Triste destino de uma criação literária: recebida com indiferença pelos seus contemporâneos e ignorada pelos pósteros! Aliás, praticamente toda a prosa da escola byroniana teve o mesmo fim, relegada a notas de pé de página em obras de crítica literária, ou a menções en passant, o que é uma lástima. Muitas delas foram publicadas somente em jornais e nunca saíram em livro, como Trindade Maldita, de Távora. Fica, assim, o leitor atual privado do acesso a essas obras.

A Theodomiro não faltava um vasto saber, talento e inteligência vigorosa, que transparecem nas suas páginas; mas não tinha o brilho do gênio que iluminou a obra de Álvares de Azevedo. Parafraseando Nietzsche, pobre do discípulo que nem ao menos se iguala ao mestre!

Theodomiro escreveu também uma peça de teatro, A Maldição, sobre os dramas de um acadêmico. Pessanha Póvoa elogiou-a, reconhecendo que a obra tinha “poucos erros a corrigir”. Mesmo assim, acusou-o de ter copiado outra peça. Theodomiro respondeu dizendo que apenas a imitara, e a discussão se estendeu sobre o romance Gennesco. Além desta obra, produziu os dramas Duas Faltas e O Poeta, em 1869.

Um defeito comum aos autores ultrarromânticos é a artificialidade dos diálogos, o abuso de hipérboles, os lances teatrais, o apelo a citações de autores cultuados, a afetação de uma falsa experiência de vida, baseada apenas no conhecimento livresco. Assim, para cada situação, para cada fato observado, para cada sentimento, apelavam invariavelmente a referências literárias, a personagens de Shakespeare, de Byron, de Homero, ou figuras mitológicas. Todos estes recursos também foram usados por Azevedo, mas com muita graça e naturalidade.

Gennesco é um “discurso dramático” com tantas citações de autores e personagens literários que para ser melhor compreendido pelo leitor moderno exigiria um glossário ao final do livro. Mesmo para a sua época era um texto que só poderia ser curtido apenas por um público restrito ao meio acadêmico. Daí, talvez, a razão de ter permanecido na obscuridade até hoje. Contribuiu também para isso as referências negativas dos críticos modernos, como a de Edgard Cavalheiro, classificando-o como “mera imitação” de Noite na Taverna.

A prosa dos autores byronianos no Brasil, em termos de qualidade literária, ficou aquém da produção poética, pois neles predominava a linguagem da poesia. Varela, por exemplo, quando se aventurou pela prosa nunca deixou de ser um poeta, e por isso — conforme observou um crítico literário —, não chegou a se realizar como prosador. Tem-se a mesma impressão diante de Gennesco; aqui também o poeta sobrepuja o prosador.

O “estilo byroniano” de vida seduzia a mocidade acadêmica da época, que imitava a conduta desregrada do seu ídolo, provocando o desagrado e a reprovação do Imperador. Muitos estudantes, principalmente aqueles de origem humilde, pagaram caro por isso e foram banidos da Academia.

Os byronianos eram a vanguarda da época e, como tal, não podiam deixar de “chocar a burguesia”… A aceitação de Noite da Taverna só foi possível graças ao talento inquestionável de seu autor, pois contrariava os padrões morais de seu tempo. Esse tipo de literatura era condenada pelos religiosos, e desaconselhável para “moças de respeito”, fama que persistiu por muito tempo.

Muitos poetas tiveram de publicar suas composições byronianas sob pseudônimo, ou renegá-las, com receio de comprometerem suas carreiras jurídicas ou políticas, em consequência da reprovação imperial.

Os críticos não foram benevolentes com Gennesco, mas isso não justifica o seu esquecimento; a obra merece uma reedição, mesmo que seja apenas para satisfazer a curiosidade dos aficcionados deste gênero literário, e como material de pesquisa para historiadores da literatura daquele período.

Os críticos fizeram seu julgamento sobre Gennesco, cabe agora ao leitor concordar ou não com eles.

Nota biográfica:

Theodomiro Alves Pereira, escritor, jornalista e político brasileiro do século XIX, nasceu em 1840, em Diamantina.
Além de escritor e dramaturgo, depois de se formar em 1863, em S. Paulo, fez carreira política como deputado provincial pelo Estado de Minas Gerais de 1866 a 1880, e integrou o grupo mineiro que defendia ideias republicanas. Já durante a República, foi senador por Minas de 1891 a 1895. Em todas as legislaturas serviu nobre e heroicamente às ideias do Partido Liberal.

Destacou-se como advogado eloquente, orador e brilhante jornalista. Depois de desempenhar importantes mandatos políticos, caiu no ostracismo, e terminou seus dias em 1911, isolado e recluso como um anacoreta na sua casa em Diamantina.

Notas:
(1) Pires de Almeida, A Escola Byroniana no Brasil, pág. 217
(2) Pessanha Póvoa, Annos Academicos, pág. 72
(3) Pessanha Póvoa, Annos Academicos, pág. 66

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