Dalmo, um livro esquecido que merece uma releitura

Muitas obras publicadas no século XIX jamais foram reeditadas, algumas inexplicavelmente, como é o caso do romance de Luiz Ramos Figueira, Dalmo ou Mistérios da Noite.

Texto de Bira Câmara

Quando este romance foi publicado em 1863, o autor ainda cursava o 3° ano do curso de Direito, em São Paulo, e tinha apenas 20 anos de idade. Para um autor que estreava nas letras, a recepção do público e da crítica foi das mais positivas. Dalmo recebeu elogios até de Machado de Assis, que assim se referiu ao romance:

“Em boa justiça devem-se louvores ao Sr. Figueira. Se a sua obra acusa descuidos, revela qualidade de imaginação e de apreciação; há nela muitas belezas derramadas por muitas páginas. Uma boa crítica não pode deixar de acolher a obra do Sr. Figueira como um presente que promete outros muitos, e a isso fica virtualmente emprazado o leitor.” (1)

Já o crítico literário Pessanha Póvoa não lhe poupou elogios e deixou registrado que o próprio José de Alencar “se fosse vivo apertaria a mão de seu autor”. Ao contrário de outros autores deste mesmo período que, fascinados pela obra de Álvares de Azevedo tentaram repetir sem sucesso a fórmula de Noite na Taverna, Figueira conseguiu produzir um livro no mínimo original, e não se limitou a fazer uma mera imitação do Byron brasileiro.

Póvoa não só saudou Figueira como “um talento feito”, como observou que ele “não parodiou nem parafraseou a Noite da Taverna de A. Azevedo; foi além, e o que lhe honra os seus talentos é a firmeza descritiva, a sua originalidade.” (2)

O crítico Mário da Silva Brito classificou todos os prosadores românticos brasileiros como “ficcionistas superficiais e, muitos, fúteis e inconsequentes”, carecendo “de artifício, da malícia que preside à construção técnica da ficção”. (3) No entanto, em nossa modesta opinião, Dalmo não se enquadra inteiramente nesta última carência. Claro, há nele alguns vícios da escola romântica como o sentimentalismo exagerado e a exuberância de emoções e de linguagem. Mas para os padrões literários da época, Dalmo é uma peça surpreendente “enxuta”. A narrativa de Figueira flui com naturalidade e os diálogos na maioria concisos, breves, não caem no artificialismo discursivo dos imitadores de Azevedo, que abusaram das citações e paráfrases.

Antes da publicação de Dalmo, outro estudante do 3° ano do curso de Direito, em São Paulo, Theodomiro Alves Pereira, também lançara um romance — Gennesco (1861) — considerado pela crítica como mera imitação de Noite na Taverna. Neste mesmo ano saiu no Correio Paulistano o folhetim de Fagundes Varella, Ruínas da Glória; em 1862 Franklin Távora publicou Trindade Maldita. Nenhuma dessas produções ficou para a posteridade, embora Edgard Cavalheiro tenha reconhecido o conto de Varella como “a mais importante e bem realizada” imitação, embora longe de qualquer comparação com a obra de Azevedo. Já o romance de Theodomiro foi impiedosamente desqualificado por Pessanha Póvoa, que sentenciou: “Gennesco, se não fosse uma blasfêmia, seria uma peste literária”.

Aparentemente, apenas no meio acadêmico, principalmente entre os byronianos de seu tempo, Gennesco gozou de alguma celebridade. No célebre episódio da Rainha dos Mortos — segundo Pires de Almeida — um estudante, à noite, no cemitério “leu um trecho do Gennesco (…) e outro “um fragmento do Dalmo de Ramos Figueira”. (4)

DALMO ou MISTÉRIOS DA NOITE de Luiz Ramos Figueira, Brochura, 148 páginas, formato 13 X 20 cm. Prefácio e atualização ortográfica de Bira Câmara. Análise crítica de Pessanha Póvoa.

De todas essas obras, apenas Ruínas da Glória foi novamente publicada algumas vezes, o que é uma lástima. No caso de Dalmo, chega a ser inexplicável não ter sido reeditada, assim como o esquecimento em que caiu. Teria sido porque Figueira, depois de ser saudado como um talento emergente, nunca conseguiu escrever outra obra do mesmo nível?

A publicação de Dalmo deixou no ar a expectativa de que novos romances poderiam sair da pena de seu autor, mas isso não aconteceu, infelizmente…

Das obras que vieram na esteira de Noite na Taverna, esta foi a mais bem acabada como obra de ficção e também a mais original. Não chega a se enquadrar no gênero fantástico, à moda de Hoffmann, e tem um tom pessimista, amargo, e um clima fúnebre, mas sem o cinismo e a descrença na possibilidade de redenção humana, que a maioria dos prosadores ultrarromânticos afetava.

Dalmo, o personagem-título, representa uma luta nas trevas, como observou Póvoa: “um homem contra uma sociedade, uma ideia contra uma instituição, um Esopo impossível.” (5) Nas suas caminhadas solitárias pela cidade, durante a madrugada, ele tem acesso aos mistérios sombrios e aos “crimes que o confessionário oculta.” Ele é o justiceiro, o mediador entre o bem e o mal, a virtude e o vício.

O mal está representado na trama por um cônego devasso e inescrupuloso, seduzindo a pura e inocente donzela, bem ao gosto da literatura gótica. Aqui, com certeza temos ecos de Hoffmann e Ann Radcliffe. A paixão desenfreada do cônego culmina em desfecho trágico e toda a trama é permeada de um clima mórbido.

Dalmo é a antítese do personagem byroniano, um justiceiro, o mediador entre o bem e o mal, a virtude e o vício.

Para os ultrarromânticos, Eros e Tanatos andavam de mãos juntas; na verdade, como bem observou Edgard Cavalheiro, “a morte era a grande musa, a namorada de todos eles”. A rigor, este é o principal ponto em comum da obra de Figueira com os byronianos: o amor resulta em fatalidade e morte, a vida corre de braço dado com a desgraça.

O papel de vilão, representado por um padre, não é ocasional; o meio acadêmico onde o autor vivia quando escreveu Dalmo não só idolatrava Byron como respirava uma atmosfera carregada de ventos revolucionários, liberais, republicanos, e, portanto, anticlericais. Os ideais maçônicos da Bucha faziam a cabeça dos estudantes do curso de Direito e alimentavam este sentimento anticlerical. Mas Figueira não caiu na tentação do discurso panfletário, como fez Theodomiro em algumas passagens de Gennesco.

Ao contrário de Azevedo e Varella, o autor de Dalmo não tem para com a Pauliceia o mesmo sentimento de tédio e desalento. Em mais de uma passagem ele descreve a paisagem paulistana com lirismo e ternura, como abaixo:

“Noites de Piratininga! Como sabeis influir a magia desses luares, dessas cortinas de névoas nas montanhas, nas palmeiras, nos lagos e ilhas da Várzea! Quanta saudade, quanta poesia, quão doce cogitar despertais no peito que ama e sofre! Amo-vos, quer na claridade sem calor, quer na meia escuridão em que vos escondeis quando o firmamento se recama de estrelas cintilantes e o astro generoso não quer empalidecer os brilhos de suas filhas!”

Em outra passagem enaltece a beleza da cidade, comparando-a a Sevilha e Granada. Sobre as paulistanas, ele é mais comedido:

“À noite, sim, quando vagueiam pelas ruas mal alumiadas esses vultos que deixam reluzir no escuro uns olhos pretos por entre as rendas da mantilha; essas incógnitas caminheiras das desoras, que escondem na baeta um segredo de ciúme, ódio e de amor. Mal desses corações se tivessem de pulsar a descoberto!”

Impressões bem distintas das registradas por Azevedo em Noite na Taverna sobre a cidade e as mulheres paulistanas.

Mesmo o clima soturno das noites, o frio das madrugadas no inverno, a garoa, a névoa, sempre são descritos com simpatia quase ufanista.

Neste drama fúnebre cada personagem tem suas singularidades, seus mistérios que vão sendo aos poucos revelados. O sobrenatural intervém muito pouco, como se o autor se esquivasse de fórmulas fáceis para eletrizar o leitor em sacrifício da verossimilhança.

Em suma, qualquer espírito bem educado e com sensibilidade literária há de reconhecer as qualidades deste romance e concordar que ele merecia melhor sorte do que ficar sepultado no esquecimento durante mais de um século.

NOTA BIOGRÁFICA
Pouco sabemos sobre o autor e de outras produções de sua lavra. O Dicionário Bibliográfico Brasileiro de Sacramento Blake registra apenas que nasceu em Angra dos Reis, Rio de Janeiro, pelo ano de 1843 e faleceu em Guaraqueçaba, vila do Paraná, a 27 de setembro de 1894. Bacharel em letras pelo colégio Pedro II e bacharel em Direito pela faculdade de S. Paulo, foi promotor público na comarca de Paranaguá e deputado provincial no Rio de Janeiro e no Paraná. Fundou e redigiu a Imprensa Acadêmica, jornal comercial, agrícola, noticioso e literário dos estudantes de S. Paulo (1864-1865). Deixou a redação após sua formatura; mas a publicação continuou até 1870. Além de Dalmo, escreveu também Amores de um voluntário: romance da atualidade (1868), dedicado a José de Alencar.

NOTAS:
(1) Machado de Assis, Crônicas,1862-1863, O Futuro, RJ.
(2) Pessanha Póvoa, Annos Acadêmicos, pág. 78.
(3) in Nota Introdutória de “O Conto Romântico Brasileiro”, pág. 5.
(4) Pires de Almeida, A Escola Byroniana no Brasil, pág. 217.
(5) Pessanha Póvoa, idem, pág. 77.

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