Papas, uma história bem agitada

Nem todos os papas foram modelos de santidade ou de moralidade, pelo contrário…
Texto de Bira Câmara

 

Quem nunca leu nada a respeito da história do Papado pode imaginar que este assunto deve ser uma chatice. Está redondamente enganado: a história dos papas pode ser chamada de qualquer coisa, menos de monótona! Para início de conversa, nela tem um pouco de tudo: sexo, política, intrigas, assassinatos, guerras, perversões sexuais, e vai por aí a fora… Daria um belo roteiro para uma mini-serie com produção hollyoodiana.

Nesta história também tem muita coisa mal contada e algumas inverdades que teimam em permanecer na mente das pessoas. A Igreja tem costas largas e telhado de vidro, portanto a hipérbole (para não dizer outra coisa) é nota constante quando se fala de assuntos como a lenda da papisa Joana, a Inquisição, Joana D’Arc, o processo de Galileu e a atuação de Pio XII diante do nazifascismo, entre outros.

A crença geral em relação à famigerada Inquisição espanhola é que ela matou e torturou milhares de pessoas (há quem acredite que foram milhões). No entanto, pesquisas recentes feitas por historiadores insuspeitos nos arquivos do Vaticano revelaram um número surpreendentemente modesto: pouco mais de 800 pessoas queimadas vivas no período de quatro séculos!

Outro mito enraizado é que Joana D’Arc teria sido queimada como feiticeira por obra da Igreja. Nada mais falso: ela foi presa por franceses aliados do rei da Inglaterra, julgada e condenada por um tribunal civil; nem o papa ou a Igreja tiveram algo a ver com este processo, apesar da participação de um bispo francês vendido à coroa inglesa. Portanto, este clérigo não poderia ser considerado o representante do papa ou da Igreja por direito.

Quanto a Galileu, bem, há muito que se sabe que ele não foi um mártir nem também falou a célebre frase eppur si muove. O cientista não passou um dia na cadeia e continuou a viver muito bem, sem ser molestado nos seus estudos…

O mais injustiçado na história recente dos papas é Pio XII, que ficou estigmatizado como “papa de Hitler”, uma calúnia repetida insistentemente. Até hoje ninguém toma conhecimento dos milhares de vidas, inclusive de judeus, que ele salvou dos nazistas escondendo-os no Vaticano e na própria residência de verão papal, em Castel Gandolfo. Um livro lançado recentemente – The Defamation of Pius XII, de Joseph Sobran – tenta reabilitar a figura de Pio XII, contando a verdade que muitos fazem questão de ignorar.

A história da Igreja e do Papado está intimamente entrelaçada com a própria história da civilização, e seria impossível contar uma sem entrar na outra. De certa forma, ao ocupar o vácuo deixado pelo ocaso da religião pagã, a Igreja também ocupou o vácuo político deixado pela ruína do império. Portanto, de certa forma, os papas deram continuidade ao império romano e muitos agiram como verdadeiros césares.

Por mais que a Igreja alegue que o Papado seja uma instituição divina, é uma instituição humana. Queiram ou não, seu pontifex máximo é passível de fraquezas humanas como todos os mortais e a história dos papas mostra isso muito bem.

Sínodo do cadáver,  um episódio bizarro

O papa Estevão VI (896-867) odiava tanto o seu predecessor que mandou desenterrar o seu corpo e fazer um julgamento póstumo.

Isso aconteceu em 897, e o cadáver era do papa Formoso (891-896). O episódio ficou conhecido como Synodus Horrenda, e foi tão surrealista que o cineasta Buñuel utilizou-o como uma das cenas de seu controvertido filme Via Láctea.

O corpo do papa defunto foi colocado num trono, julgado, condenado, e os três dedos com que dava a benção foram decepados…

A basílica onde o julgamento foi realizado desabou logo depois, o que levou o povo a acreditar que fora obra do cadáver e a revoltar-se contra Estevão.

Santos, heróis, guerreiros

No período tumultuado que se seguiu à queda do império romano, a Igreja cristã aos poucos acabou se consolidando e se expandiu até conseguir se tornar uma potência política na Idade Média. O Papado teve altos e baixos e muitas vezes a cadeira de São Pedro foi ocupada por gente cuja conduta estava longe de ser considerada “cristã”.

Desde a Reforma protestante, a figura do papa tem sido frequentemente associada à do Anticristo e alguns deles bem que fizeram jus a este rótulo.

Na história dos papas, alguns foram verdadeiros santos, outros guerreiros, diplomatas, mecenas. Houve até um papa poeta — Urbano VIII (1568-1644) — e um médico, o único português a chegar ao pontificado, João XXI (1276-1277). A galeria dos papas tem também um pirata, João XXIII (1410-1515), que se elegeu pela força das armas e acabou destituído e preso. Outra figura carimbada nesta história é Pio II (1458-1464), que antes de chegar ao pontificado escrevia histórias eróticas e picantes.

Gravura representando o papa Alexandre III, ao aceitar a submissão de Frederico I. Com o pé no pescoço do imperador prostrado, cita um salmo “Tu deves caminhar sobre a víbora e sobre o basilisco, e pisotear o leão e o dragão”. Frederico responde que sua submissão é a São Pedro, e não a Alexandre. O papa arrogante retruca: “Para São Pedro e também para mim”

Gravura representando o papa Alexandre III, ao aceitar a submissão de Frederico I. Com o pé no pescoço do imperador prostrado, cita um salmo “Tu deves caminhar sobre a víbora e sobre o basilisco, e pisotear o leão e o dragão”. Frederico responde que sua submissão é a São Pedro, e não a Alexandre. O papa arrogante retruca: “Para São Pedro e também para mim”

No século XIII o poder dos papas chegou ao auge, submetendo os imperadores do Sacro Império Germânico e os senhores feudais à sua autoridade. Nos estertores deste século um verdadeiro santo abnegado chegou ao pontificado: Celestino V (1294), que vivia retirado num monastério; mas seu reinado durou poucos meses. Escandalizado com o luxo e o ambiente licencioso de Roma, ele renunciou depois de reunir os bispos e exortá-los a deixarem suas amantes e viverem na pobreza como Jesus. Reza a lenda que ele despiu as vestes e ornamentos papais, retomou seus trajes de eremita e foi embora montado num jumento como Jesus… Seu sucessor, Bonifácio VIII, mandou-o para a prisão, onde morreu abandonado e subnutrido.

Papas, fatos, lendas e curiosidades, de Thelonius Wolf,  Bira Câmara Editor, 2013, 192 páginas, brochura, 14 X 21 cm., ilustrado.

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