Luciano de Samósata: um precursor da ficção científica

Sem nenhum exagero poderíamos considerar Luciano de Samósata um dos precursores da prosa moderna, a quem cabe a glória da invenção do gênero de ficção científica e de ter sido o primeiro contista da história da literatura. Além disso, o que não é pouco, também é o pai do espírito crítico, da sátira mordaz, do ceticismo, da irreverência, inaugurando uma linhagem de autores da estirpe de Erasmo, Thomas Morus, Rabelais, Swift, Voltaire, Anatole France e outros. Inimigo de todas as formas de superstição e mentira, mostrou-se implacável não só em relação aos cristãos, mas também aos pagãos.

Erasmo elogiou-o pela vivacidade de seu estilo, sua fantástica imaginação, seu humor cáustico e certeiro, pela habilidade de mesclar o sério ao lúdico, brincando e divertindo-se ao dizer a verdade. Também ficou encantado «pela forma como retratava, como um pincel, os hábitos, as paixões e os sentimentos humanos; nenhuma comédia ou sátira poderia jamais ser comparada com os seus diálogos, tanto pelo lado divertido quanto pelo que tinha de útil». O seu Elogio da Loucura, onde ele coloca «a frivolidade ao serviço do que é sério», de certa forma foi inspirado pelo Elogio da Mosca de Luciano.

Mas durante muito tempo a tradição humanista cristã considerou-o panfletário e superficial, incapaz de reconhecer-lhe a poderosa originalidade de espírito. Já Renan admirava-o justamente pela sua irreverência e a capacidade de zombar das coisas que os homens consideram sagradas. Diz ele: «Na segunda metade do século II não vemos senão um homem que, superior a toda a superstição, tem o direito de rir das loucuras humanas e delas sentir piedade. Este homem, o espírito mais sólido e interessante do seu tempo é Luciano. […] Não odeia coisa nenhuma: ri de tudo, exceto da virtude séria. [1]»

Na época em que ele viveu a religião antiga estava no seu ocaso e o vácuo espiritual deixado pela sua decadência começava a ser preenchido pelo cristianismo. Para se compreender melhor o espírito filosófico de Luciano é necessário conhecer o estado em que se encontrava o mundo pagão nos séculos II e III de nossa era:

«A antiga sociedade desmoronava e, a não ser na periferia do império, ninguém mais acreditava nas divindades do Olimpo e nem a filosofia tinha respeitabilidade suficiente para substituir a religião. Os costumes públicos, que mal começavam a se regenerar em algumas partes do império pelas doutrinas reformadoras e vivificantes do cristianismo, tinham chegado ao último estágio da dissolução e do despudor. Velhos sem dignidade, atrevidos caçadores de heranças, multidão ao mesmo tempo supersticiosa e incrédula, bajuladores e parasitas vendendo sua liberdade por um lugar à mesa dos ricos, retóricos ignorantes e tagarelas, e, acima de tudo, uma massa de espíritos influenciáveis e indecisos entregues à indiferença, essa doença mortal das épocas em que faltam a emulação virtuosa e o desejo generoso de praticar o bem e a firmeza das convicções; tal era o mundo que se mostrava aos olhos observadores de Luciano.» [2]

A maioria pagã do século II acreditava-se praticante da verdadeira religião, interpretação que se inverteria no final do século IV, com o triunfo do cristianismo. Mas para as pessoas cultas que faziam parte desta maioria pagã, como Luciano, a filosofia era o único antídoto contra as loucuras da religião, tolerada apenas porque defendia a segurança do Estado e preservava a pax deorum. Da mesma forma, este período é considerado literariamente decadente, criticado pela falta de originalidade, abundância de referências literárias do passado e produção oratória, fria, livresca e pedante.

Em seus escritos Luciano deixa transparecer simpatias filosóficas por Platão, Epicuro, Diógenes e Zenon, e embora os críticos lhe reprovem a postura de ceticismo sistemático, ele deixa claro seu empenho na busca da verdade filosófica, seguindo o exemplo de Sócrates, ao propor-se chegar pela dúvida à descoberta da verdade.

Os filósofos de sua época também não escapavam de sua crítica ferina:

«Há uma espécie de homens que, por algum tempo, sobe à superfície da sociedade, raça preguiçosa, briguenta, vaidosa, irascível, gananciosa, extravagante, insolente, inchada de orgulho, e para falar como Homero,

……. inútil fardo da terra.

Estes homens se juntam em diferentes grupos, inventando incontáveis labirintos de palavras, e se autodenominam estóicos, acadêmicos, epicuristas, peripatéticos e outros nomes ainda mais ridículos. Então, vestem-se com o manto da virtude respeitável, de sobrancelha levantada, longa barba, disfarçam a infâmia de seus costumes com uma aparência estudada, semelhante aos comparsas da tragédia, cuja máscara e vestimenta douradas, uma vez removidas, deixam nu um ser miserável, um aborto insignificante que se vende a sete dracmas por representação. No entanto, como eles desprezam todos os homens, atribuem mil disparates aos deuses, rodeando-se de jovens ingênuos, para declamar, em um tom trágico, lugares-comuns sobre a virtude, e ensinar a arte de raciocinar sem resultados. » [3]

Adivinho romano fazendo uma consulta

Estes homens eram os guias do povo e os propagadores da instrução moral e religiosa, filósofos que condenavam e aviltavam o espírito humano. Mas não eram os únicos: uma falange audaciosa de magos, adivinhos, feiticeiros, astrólogos, cartomantes, fabricantes de ungüentos e poções mágicas, oráculos, talismãs e amuletos, exploravam o povo sempre ávido pelo maravilhoso e o sobrenatural, e tanto mais crédulo quanto maior a astúcia dos impostores. De todas as partes acorriam multidões em torno desses milagreiros, prodigalizando-os de honras divinas, admiração e dinheiro. Luciano, fiel ao seu papel, não deixou de desmascarar estes farsantes desavergonhados e sem moral, mentirosos descarados, que retratou na vida de Alexandre de Abonótica. Ele zombou de suas práticas supersticiosas e seus escândalos com um bom senso extraordinário, da mesma forma que ridicularizou a religião pagã em outros textos como O Mentiroso, Lúkios e A Deusa Síria.

Para os primeiros cristãos, sua irreverência e descrença em relação ao politeísmo compensaram sua indiferença pelo cristianismo e, por isso, os seus textos não foram proibidos ou condenados. Assim, eles consideraram Luciano menos como um inimigo do que um aliado, ao ajudar a solapar a crença na religião pagã. Aliás, em A Morte de Peregrino, Luciano revela um conhecimento superficial sobre as práticas e crenças dos cristãos, confundindo-os com os judeus.

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Mais de 80 obras são atribuídas a Luciano, entre as quais se destacam Lúkios ou O Burro, História Verdadeira, O Parasita, Elogio da Mosca, Diálogos das Cortesãs, Diálogo dos Mortos, Sobre o Modo de Escrever História, O Sonho ou O Galo. É absurdo que um autor com tal produção e tamanha importância na história da literatura universal tenha sido negligenciado pelos editores brasileiros por tanto tempo [4].

A mais célebre e extravagante obra de Luciano é História Verdadeira, escrita por volta de 180 d. C. e reconhecida como precursora do gênero de ficção científica. Antes deste texto nunca tinha sido escrita uma história tão surreal e fantástica, cuja originalidade impressionou muitos escritores medievais e modernos. Rabelais, Cyrano de Bergerac, Swift (Viagens de Gulliver), Voltaire (Micrômegas) devem muito a ele, para não falar de Gottfried Burger e suas Aventuras do Barão de Munchausen.

Lúkios ou O Burro envereda pelo fantástico dentro da tradição já conhecida do folclore de seu tempo. Na verdade trata-se de uma fábula no estilo oriental, em que o personagem é transformado em burro por uma bruxa. Alguns anos mais tarde, a anedota foi recontada por Apuleio no seu romance O Asno de Ouro.Em outro texto seu, Os Amigos da Mentira ou O Incrédulo, ridiculariza a tendência dos filósofos em acreditar no sobrenatural e põe em cena um escriba egípcio capaz de dar vida a objetos inanimados por meio de fórmulas mágicas, convertendo uma vassoura em seu criado. A idéia inspirou o poema de Goethe, intitulado O Aprendiz de Feiticeiro, publicado em 1797, depois transformado num poema sinfônico com o mesmo nome por Paul Dukas, em 1897, e que inspiraria a célebre seqüência de Fantasia de Walt Disney, criada em 1940.
O tema da metamorfose aparece também no diálogo O Sonho ou O Galo; aqui um galo que foi Pitágoras transmuta-se em peixe, cavalo, rã e por último em esponja, após o que chega a conclusão de que o homem não merece ser considerado o mais perfeito dos animais, por sua teimosia em querer ir além dos limites fixados pela natureza para ele.

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Alexandre ou o falso profeta é uma narrativa biográfica onde inicialmente Luciano faz a descrição física e psicológica de Alexandre de Abonótica, para depois contar em ordem cronológica os eventos da vida deste personagem. Escrito sob forma epistolar, usada com freqüência na antiguidade para tratados filosóficos, o texto é dirigido a Celso, autor do Discurso contra os cristãos. Munido de humor como arma crítica, ele transcende os limites do gênero biográfico levando o leitor a uma reflexão não só a respeito do biografado, mas também sobre as crenças em geral, a idolatria, a credibilidade dos oráculos e das profecias, e a corrupção moral de sua época. E neste sentido, Luciano extrapola o gênero, praticamente antecipando a moderna narrativa jornalística ao investigar e desmascarar os truques, o know how e os estratagemas arquitetados por Alexandre para enganar os incautos. Como verdadeiro repórter, sem perder a objetividade, não lhe escapou nenhum ângulo, nenhuma faceta do impostor, a quem teve o prazer de morder-lhe a mão no instante em que este a estendeu para a homenagem de um beijo.

Não há como evitar a sensação de déjà vu à leitura deste texto, pois embora o personagem tenha vivido há quase dois mil anos, seus métodos, seu discurso, o fanatismo de seus seguidores, tudo isto nos parece familiar e semelhante a tantas histórias de mestres, gurus, líderes de seitas esotéricas e falsos profetas de nossa época. Sem dúvida, hoje em dia os métodos destes impostores são outros. Mas se os rudimentares, mas engenhosos aparatos inventados por Alexandre não impressionariam mais ninguém, por outro lado os modernos charlatães só precisam de boa lábia para aumentar sua clientela…

Como o leitor irá perceber ao final da leitura deste texto, Alexandre é um personagem arquétipo, um “psicopata de carteirinha” pela ótica de hoje, com todos os atributos e características do farsante ambicioso, do vigarista sem escrúpulos, tão abundante na história como o célebre Cagliostro, o conde de Saint-Germain, Rasputin, Aleister Crowley e tantos outros. Talvez ele não tenha ido mais longe com suas ambições porque o império tinha um homem sábio no seu comando. Sua teia de comparsas que espalhavam notícias de falsos prodígios e profecias chegou à corte e fisgou o influente e respeitado Rutiliano, mas jamais conseguiria enredar um pensador do porte de Marco Aurélio. É bom lembrar que astrólogos e adivinhos ocuparam posição de destaque como conselheiros de Tibério, de Nero, de Óton, entre outros governantes, com conseqüências muitas vezes nefastas.

A atualidade deste texto específico de Luciano, que me impressionou na primeira vez que o li, deve-se à própria similaridade da nossa época com a do autor. Assim como no século II, o paganismo decadente entrava no ocaso e abria-se ao sincretismo, incorporando toda classe de superstições, da mesma forma que as religiões tradicionais dos tempos atuais passam por um processo de decadência que pode levá-las ao fim num futuro próximo. Ontem como hoje há um afrouxamento da moral, uma liberalização dos costumes que se confunde com corrupção e promiscuidade em todos os sentidos.

A partir do século dezenove o crescimento do interesse pelo ocultismo, o surgimento do espiritismo e da teosofia, lançaram as sementes para o caldo sincretista do século vinte, com a onda new age, o interesse pelas religiões orientais e a proliferação de seitas e correntes esotéricas. Aonde isso vai dar, é algo ainda difícil de prever. E o lamentável é que, apesar do progresso científico e tecnológico, o homem comum ainda continua atraído pelo sobrenatural e não está livre do perigo de cair nas garras de alguma versão moderna do impostor de Abonótica.

Bira Câmara

Notas:

[1] Ernest Renan, Marco Aurélio e o Fim do Mundo Antigo.

[2] Eugène Talbot, no prefácio de “Oeuvres complètes de Lucien de Samosate”, Tome 1, Ed. Hachette (Paris) 1912.

[3] Luciano, lcaromênipo, 29

[4] As únicas edições brasileiras de que tenho notícia são: O Diálogo dos Mortos, Ed. UNB, 1999; Como se deve escrever a história, tradução de Jacyntho Lins Brandão, Ed. Tessitura, 2009; História Verdadeira, trad. de Gustavo Piqueira, Ed. Ateliê, 2012.

Alexandre, ou o Falso Profeta“, Luciano de Samósata, 2013, 59 páginas, formato 13,5 X 20,5 cm., ilustrada. Tradução e prefácio de Bira Câmara. A edição traz também Oráculos e adivinhos na Grécia e Astrologia e magia no império romano, dois capítulos do livro “Histórias da Astrologia”, de Bira Câmara.

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