O romance gótico revisitado por um mestre do folhetim

Féval, numa caricatura de Étiénne Carjat, por volta de 1865

Féval, numa caricatura de Étiénne Carjat, por volta de 1865

As obras de Paul Féval (1816-1887) deveriam ser lidas e estudadas com atenção por qualquer aspirante a roteirista, pois teriam muito a aprender com elas. Poucos escritores sabiam arquitetar uma trama e contar tão bem uma história como ele. Em suas mãos, até mesmo uma despretensiosa novela vampiresca acaba se desdobrando em inesperadas situações e numa complexa trama que transcende os limites do romance gótico. O que não é de surpreender, pois Féval foi um dos grandes autores de folhetim na França, chegando a rivalizar com Alexandre Dumas. Sua obra, composta por mais de 200 volumes, cujos numerosos romances populares editados em folhetins alcançaram enorme sucesso, igualou-o a nomes como Balzac e Dumas no cenário literário.

Nos anos 50 e 60 seus romances de capa e espada foram muito populares no Brasil, como O Corcunda, O Cavaleiro Lagardére, Mistérios de Londres e outros. Também incursionou pelo teatro e pela história política. Cultor da literatura fantástica, além de Ville-Vampire, escreveu obras como La Vampire, Le Chevalier Ténèbre, Une Histoire de Revenants, etc.

Mas não se iludam, Ville-Vampire vai um pouco além de um simples folhetim de terror. Poderia ser considerado uma resposta francesa tardia à onda dos romances góticos ingleses, que teve em Ann Radcliffe sua grande expoente. Ousado, irreverente, Féval brinca com os clichês do gênero lançando mão da sutileza característica do espírito francês. É como se ele quisesse demonstrar que ainda era possível, em sua época, escrever uma novela gótica com todos os seus ingredientes, mas fazê-lo de uma forma inventiva como nem mesmo os ingleses imaginariam. E surpreende logo de cara, pois a heroína da história é ninguém mais que a própria… Ann Radcliffe! E o mais irônico é que a rocambolesca aventura supostamente vivida pela escritora é muito mais fantástica do que todas as histórias escritas por ela.

A narrativa é rica de sutilezas; o autor nunca desperdiça a oportunidade de “tirar um sarro” dos ingleses, de suas peculiaridades, de sua mania de se acharem superiores aos mortais de outras raças. Todo o texto é permeado por uma afiada sátira do orgulho britânico, com sua inclinação ao narcisismo, ao egocentrismo e ao menosprezo pelo resto da humanidade. Assim, quando se refere à Ann Radcliffe, o tratamento de sua amiga Jebb é o mesmo que se deveria dar a uma deusa ou a um ser superior. E, quando cai num buraco na Holanda, prestes a ser salva por um jovem compatriota, Ann quase entra em êxtase ao admirar a beleza ímpar de seu salvador, descrito como um semi-deus… Da mesma forma, Féval também zomba das rivalidades nacionais dos povos das ilhas britânicas. O obtuso criado inglês de Radcliffe, em situação de extremo perigo, prefere cruzar os braços em vez de ir ao socorro de Merry Bones, um valente irlandês que consegue escapar da sanha de um grupo de vampiros graças a… sua cabeça dura! Nem mesmo o clima da Inglaterra escapa da ironia do autor.

Alguém poderia argumentar que esse tipo de coisa nada tem a ver com o espírito do “romance noir”, ao que poderíamos responder lembrando que há uma velada xenofobia nas primeiras novelas góticas, onde quase sempre o vilão é um estrangeiro, de preferência latino… Em Confessionário dos Penitentes Negros, da própria Radcliffe, o vilão é italiano, assim como o monge diabólico do célebre romance de Mathew Gregory Lewis, The Monk. Não podemos esquecer, também, que as primeiras lendas vampirescas no leste europeu surgiram entre povos submetidos à dominação estrangeira e, é claro, a figura do vampiro representa o invasor, que vem subjugá-los e “sugar o seu sangue”. Em uma de suas obras, Prosper Merimée relatou algumas destas histórias onde o vampiro é o invasor turco. Somente a partir do conto de Polidori (1819) é que o personagem sofisticou-se e, influenciado pelas idéias iluministas do século dezoito, passou a ser representado como um aristocrata, um membro da classe ociosa que vive da exploração da classe trabalhadora sugando-lhe o sangue. A metáfora é óbvia.

Já o vampiro Goëtzi, de Cidade Vampiro, é um pequeno burguês, doutor que nunca exerceu a medicina, ambicioso e sedento não só do sangue de suas vítimas, mas também de suas posses. Tem o poder de desdobrar-se e de transformar suas vítimas em animais, aves, insetos e até trocar o sexo. A sua entourage mais parece uma troupecircense: cães com cara humana, uma mulher careca, um homem sem rosto, um papagaio….

Paródia e desconstrução do  gótico

É uma pena que Os Mistérios de Udolfo ainda não tenha sido traduzido no Brasil; só quem o leu compreenderá melhor esta paródia genial, que brinca com os ingredientes mais caros à sua autora: heroínas atormentadas por tutores cruéis e desonestos, masmorras, castelos arruinados, etc. O próprio estilo de Radcliffe é parodiado, numa espécie de metacrítica, quando a inconsistência de determinado personagem é comentada, bem como a mania da autora de justificar e explicar.

Escrita em 1875 (portanto 22 anos antes de Drácula), lança mão de alguns artifícios inovadores no andamento da história; ela começa sendo parcialmente contada por fragmentos de cartas e por alguém que a ouviu da própria boca de Ann Radcliffe. Outro detalhe é que em alguns pontos a narrativa é interrompida para voltar no tempo e descrever os eventos que precederam a ação que está sendo descrita. Impossível não deixar de lembrar que este tipo de recurso hoje é utilizado por roteiristas de cinema até a exaustão como se fosse novidade.

A forma como Féval desdobra a trama, mas ao mesmo tempo toma atalhos para encadear as sequências e evitar explicações detalhadas torna a leitura fluente; o leitor é “fisgado” e não larga o livro até chegar ao final, como se assistísse a um thriller. Além de não economizar surpresas, deixando o leitor à espera da próxima, não perde tempo com descrições inúteis e nem mesmo com o modus operandi do vampiro Göetzi, que beira o bizarro. Ele faz transplante de cabelo e suga o sangue de uma vítima sem mordê-la, depois de espetar-lhe o pescoço com uma agulha; além de transformar algumas delas em animais e até insetos! Vampiro exigente, sente repugnância pelo sangue de uma velha e só tem apetite por donzelas…

A habilidade de Féval para contar bem uma história pode ser avaliada pela ausência de “fios soltos” na sua narrativa, onde detalhes aparentemente insignificantes mais adiante servirão para justificar e/ou “amarrar” segmentos. Uma bela lição para os roteiristas de Hollyood, que quase sempre pulam por cima da lógica, da verossimilhança e até da coerência do argumento, ao deixar de explicar pontos importantes do roteiro.

A sensação que se tem ao ler esta novela é que ela poderia muito bem ter sido escrita nos dias de hoje. Contada num ritmo delirante, a história faz ao mesmo tempo uma paródia do romance de terror e a própria desconstrução do gênero. Para quem está familiarizado com os clichês e arquétipos da clássica novela gótica, Cidade Vampiro é um prato cheio, com todos os seus elementos: o fantástico, o assustador, o terrorífico, mas também irresistivelmente divertida. Além disso, a narrativa é tensa e pontuada por muita ação, sem contar com o inesperado a cada página. A descrição de Selene, a cidade dos vampiros, é magistral, cinética, onírica e lisérgica como uma viagem de ácido. Que formidável desafio teria um diretor de cinema ou um desenhista de HQ se tentasse passar para a tela ou para o papel as imagens surreais da cidade dos vampiros, com sua esdrúxula arquitetura, suas estátuas de animais bizarros e de donzelas subjugadas por feras mitológicas!

Um vampiro diferente

A fixação pelo bizarro, pelo grotesco, pelo humor negro, tem raízes na literatura fantástica na França por obra e graça de Hoffmann, que caiu no gosto dos franceses e teve incontáveis edições por lá. Para o leitor entender melhor, já por volta de 1828, quando os contos de Hoffmann foram traduzidos pela primeira vez na França, os romances góticos ingleses (Radcliffe, Byron, Maturin, Lewis, etc.) já tinham entrado em estado de saturação com seus castelos, ruínas, paisagens tétricas, fantasmas, monges malfeitores, etc. Todos esses clichês já estavam esgotados e só poderiam ser objeto de paródia ou crítica, como o fez Jane Austen em A Abadia de Northanger (1817), onde os romances góticos e seus excessos que beiram o ridículo são substituídos por uma história prosaica e um cenário cotidiano plausível.

Hoffmann mudou este panorama e inspirou muitos autores franceses como Nerval, Musset, Gauthier e até Balzac – entre outros, dando nova direção para a literatura fantástica. Assim, um autor que abordasse a temática gótica mais de 40 anos depois de sua saturação, só poderia transgredir o gênero, inová-lo, romper seus paradigmas, revestir a figura vampiresca com outros atributos e é o que Féval fez com o vampiro Göetzi.

Os críticos sempre torceram o nariz para este gênero, considerado de gosto duvidoso e recheado de excessos imaginativos. Mas o que é condenável para a crítica, quase sempre cai no gosto popular…

Sem dúvida o senso de humor apurado e o gosto pelo burlesco, na medida certa, lembram Hoffmann. Aliás, em muitas produções da vertente gótica o humor está presente, mesmo que às vezes de forma sutil. Esse toque humorístico ou irônico faz o papel da habitual piscadela, deixando explícito a mentira, o embuste, a invenção.

Entre outras sutilezas que o leitor perspicaz há de descobrir no texto, destacamos o nome do vampiro-vilão da história, sr. Göetzi, aparentemente inspirado no termo “goétie” (em português goécia, do latim medieval goetia), que designa a prática da magia negra. Com efeito, trata-se de um arquivampiro capaz de desdobrar-se em múltiplas personalidades, como um verdadeiro mago negro.

O morcego é uma figura emblemática do universo vampiresco; no entanto, Féval quebra este paradigma e põe a aranha em seu lugar. Não poderíamos deixar de notar que a estratégia do sr. Göetzi para alcançar seus objetivos tem algo a ver com este aracnídeo: através do desdobramento de seus asseclas, ele vai infiltrando-se no território da vítima, envolvendo-a com suas intrigas até dar o bote final. A própria trama da história é como uma teia de aranha, não linear, contada com saltos no tempo e cortes que lembram a estrutura narrativa de uma história em quadrinhos ou de um filme de ficção científica, o que lhe dá um toque de modernidade.

O rótulo de surrealista também poderia muito bem ser aplicado a Cidade Vampiro, assim como o de pós-moderno, o que é surpreendente, pois seu autor passou ao largo das correntes literárias ditas de “vanguarda” de seu tempo e gozava de grande popularidade . A única coisa que poderia explicar isso é que o que já nasce moderno não envelhece nunca e continua sendo atual e universal em qualquer época. Quanta coisa não foi produzida em nome do moderno, em todos os campos e se tornou datada, precocemente envelhecida? Assim, Homero, Shakespeare, Cervantes, Goethe, Lewis Carol, e tantos outros, desafiam o tempo e permanecem sempre atuais, mesmo sofrendo sucessivas adaptações e releituras.

* * *

Um enigma é a persistente menção à cor verde na história, sempre relacionada à aparição do sr. Göetzi. Seria um mero artifício dramático? Em geral a figura vampiresca está ligada ao vermelho (o sangue) e ao negro (escuridão, trevas). Talvez seja uma referência à velha lenda parisiense do diabo verde ou, também, uma conotação alquímica de transição, de morte, pois o verde é uma das cores do estado de putrefação (*). Mas como o autor é um gozador, o mais provável é que isso não passe de mais uma singularidade desse vampiro que foge ao lugar-comum de seu gênero, beirando o absurdo.

Outro talento de Féval é o uso do efeito teatral, como na cena do circo – por exemplo –, onde uma virgem à cavalo é devorada por um vampiro; parece concebida para o cinema.

Todas essas liberdades tomadas com a figura vampiresca poderão desagradar aos puristas, aficcionados ao clássico estereótipo de Drácula. Porém, mesmo assim, não poderão negar o mérito de grande contador de histórias, que rendeu a Féval enorme popularidade e a glória de ser considerado um mestre da literatura folhetinesca.

Como Alexandre Dumas, Féval também teve um filho homônimo que seguiu carreira literária e conseguiu notoriedade continuando a obra do pai. Paul Féval filho (1860-1933), escritor bem mais modesto, mesmo assim encontrou um público leitor assíduo graças à fama do seu imortal progenitor.

Bira Câmara

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(*) A respeito deste tema, leia-se o excelente ensaio de Vicente Jr., O Verde é Fantástico! (http://www.literaturafantastica.pro.br/).

Cidade Vampiro, Paul Féval Bira Câmara Editor, 2011 / Edição de Bolso, 205 págs. – jornalivros@gmail.com

1 comment for “O romance gótico revisitado por um mestre do folhetim

  1. thiago
    14 de outubro de 2011 at 23:38

    Caros Amigos

    Com único intuito de divulgar os grandes escritores
    e grandes livros Potiguares , agora existe um espaço para valorizar as nossas obras literárias.

    Peço a vocês, que divulguem esse trabalho sem fim lucrativo, que quer apenas valorizar as obras da nossa terra. Todos os homenageados vivos, estão sendo comunicados e estão muito felizes .

    Muitos dos grandes livros e autores do RN precisam ser reeditados e relançados urgentemente, é preciso chamar atenção dos governos estadual e municipal para essa causa .

    Essa luta é de todos os Potiguares

    101 livros do RN (que você precisa ler).
    http://101livrosdorn.blogspot.com/

    Grato pela atenção

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