Origem dos almanaques

O termo almanaque consagrou um gênero de publicação (originalmente anual) que reúne calendário com datas das principais efemérides astronômicas como os solstícios, eclipses e fases lunares, e também previsões astrológicas, reportagens de conteúdo variado, como recreação, humor, ciência e literatura. Atualmente os almanaques englobam outras informações específicas a vários campos do conhecimento, com atualizações periódicas.
Almanach Bertrand 1926Mas de onde surgiu este termo? Há controvérsias quanto à sua origem, porém admite-se que a palavra almanaque é proveniente de duas palavras árabes, al manakh, que significa: a conta. Os almanaques, conhecidos em toda antiguidade, com efeito, traziam a conta dos dias, das noites, das estações, dos movimentos da lua, etc. Frei João de Sousa, no glossário Vestígios da língua arábica em Portugal, no verbete almanach, registra o étimo almaná, “calendário ou folhinha”, derivado do verbo maná (grafado também em alfabeto árabe), que significa “contar, numerar, calcular, definir, repartir por conta”.
Antenor Nascentes (Dicionário etimológico da língua portuguesa) e José Pedro Machado (Dicionário etimológico da língua portuguesa) atribuem a origem de almanaque ao árabe al-manakh, mas com um significado diferente: o lugar onde o camelo se ajoelha. Machado ainda acrescenta outros significados do étimo: estação, muda (de cavalos), região, clima. Já Antenor Nascentes tenta mostrar uma evolução semântica até “calendário”, sem explicá-la: “lugar onde a gente manda ajoelhar os camelos; daí, conto, que neste lugar se ouve, e, finalmente, calendário”. Nascentes completa fornecendo o termo que, em árabe, designa o calendário: taqwin.

Controvérsias

Alguns autores admitem uma origem diferente: uns supõem que almanaque quer dizer cálculo pela memória, derivado de duas palavras egípcias al, TICO-TICOcálculo, e men, memória; outros autores lembram que nossos ancestrais traçavam o curso da lua sobre um pedaço de madeira que chamavam de al managht, ou seja com todas as luas, e supõem que essas duas palavras deram origem ao termo almanaque.
Nas línguas orientais almanha significa estréia, alvíssaras (boas novas). Em saxão, al-monght ou al-monac seria uma contração para al-mooned que significa contendo todas as luas (em referência à tábua onde eram assinaladas). Bollème (1965) define o almanaque etimologicamente como sendo a junção do árabe al e do grego men = mês ou ainda menás (grego) = lua, latim meusis e o antigo indiano mas, medir.
Segundo outras fontes, o termo al-manakh referia-se ao lugar onde os árabes nômades se reuniam para rezar e contar as experiências de viagens ou notícias de terras distantes.
Mas a controvérsia não pára por aí: Bloch e von Wartburg (Dictionnaire étymologique de la langue française) não se referem a camelos, mas a um vocábulo de origem siríaca, de significação temporal, depois de terem apresentado a protoforma manâh, do árabe de Espanha, como étimo de origem incerta, que deu origem ao latim medieval almanach(us). Por sua vez, almanachus teria vindo do árabe al-manáhk, cuja protoforma seria o grego salmeskhoiniaka, que designaria o “livro dos nascimentos ou o livro da Grande Ursa”, e que manteve até o séc. XVII o sentido de “predição”.
O filólogo espanhol Corominas, no seu Diccionario critico etimologico de la lengua castellana, discute o problema mais longamente. Para ele, almanaque veio do árabe hispânico manâh, já com a significação de “calendário” e “almanaque”, mas de origem incerta. Esse manâh, “calendário”, seria provavelmente o mesmo ár. manâh, que significa “parada em uma viagem”, e, por extensão (?), “signo do zodíaco” e “calendário”.
001Corominas procura estabelecer, a partir das informações do orientalista Dozy, analogias semânticas entre manâh, “almanaque”, “clima”, e manâh, “estação de viagem”: assim como os signos do zodíaco são os doze lugares (estações) por onde o sol pára em sua viagem pelo céu, é possível que o manâh, “estação”, se tivesse convertido em manâh, “almanaque” e “relógio de sol”, onde o zodíaco estava marcado, e, em conseqüência, “clima”.
De tudo isso, podemos depreender que a palavra almanaque e suas possíveis origens giram em torno das atividades de contar, no sentido de computar e medir o tempo, e, por extensão de sentido, narrar. Talvez esta seja a origem dos almanaques até como gênero literário, pois, se almanaque era o lugar onde os homens, ao parar para descansar seus animais, trocavam informações sobre a vida e sobre o tempo, numa diversidade de gêneros baseados no diálogo cotidiano, a mesma coisa acontece com os almanaques escritos.

Popularidade

rejast_002De qualquer forma, os almanaques conhecidos na Índia, na China, no Egito, se espalharam pela Europa, sobretudo depois da propagação do cristianismo, porque serviam para indicar as datas sagradas.
Os astrólogos e os médicos que redigiam estes almanaques não se limitavam a indicar o curso dos astros e as festas do ano; eles acrescentaram também as profecias sobre o tempo, sobre a política, etc., que deram grande popularidade a seus livros.
Em 1550, Pierre van Bruhesen, médico flamengo, publicou um almanaque astrológico onde indicava com grande precisão quais os dias em que se poderia tomar purgantes, banhar-se, fazer sangrias, barbear-se, etc. O público leitor ficou tão impressionado que a autoridade municipal em Bruges proibiu todos os barbeiros da cidade de cortar cabelo ou fazer barbas durante os dias assinalados como fatais por Van Bruhesen!
Os antigos romanos assinalavam em seus almanaques alguns dias como felizes ou infelizes. Durante os dias negativos (nefastos) não era permitido pleitear ou fazer justiça nem realizar assembléias. Alguns dias eram “meio nefastos”; podia-se pleitear durante uma parte do dia, de manhã ou após o meio dia.
Quando nascia uma criança, bastava consultar um almanaque para saber, por exemplo, o destino que lhe estava reservado. Os antigos presumiam que a terra era imóvel e que o sol girava em torno dela, realizando em um ano uma revolução completa. O círculo descrito aparentemente pelo sol (e que na realidade é percorrido pela terra em torno do sol imóvel) foi chamado zodíaco, que se origina de uma palavra grega que significa pequenos animais, porque as constelações que se achavam sobre esse círculo tinham os nomes de animais: Carneiro, Touro, Câncer, Leão, etc. Ao longo do zodíaco havia doze constelações principais que o sol atravessava, permanecendo um mês em cada uma delas. Segundo o mês em que nascia uma criança, e, como se dizia, segundo a constelação que presidira ao seu nascimento, poderia tirar-se o horóscopo desta criança. O termo horóscopo vem do grego que significa “examino a hora” (Horoskopeo, sendo que o verbo grego skopein significa observar, examinar, literalmente, observação da hora), porque é no instante em que nasce a criança que se deve examinar o lugar ocupado pelo sol no céu.
O primeiro almanaque editado em Portugal data de 1496: Almanach ZACUTO webPerpetuum de Abraão Zacuto, impresso em Leiria. Fornecia tábuas logarítmicas e outras indicações relacionadas ao curso do sol para cada dia do ano. As informações eram para ser utilizadas junto com os instrumentos de medição astronômicos. No século XIX, sobretudo na sua segunda metade, os Almanaques se proliferaram com incontestável importância, embora completamente distanciados do avanço científico e técnico. Adaptaram-se ao gosto popular, convertidos num pequeno folheto dirigido à população rural e ao povo da periferia das cidades. Ou, então, aumentaram o número de páginas, tornando-se um instrumento de divulgação de conhecimentos tanto para o público geral, mais burguês e citadino, como para algumas camadas sociais diferenciadas por ideários políticos, religiosos ou por outros interesses muito específicos. Em 1899, surgiu em Portugal o Almanach Bertrand, muito popular em seu país, como no Brasil, no início do século XX, sendo publicado até 1969.

Fontes:

Albert Lévy, Curiosités Scientifiques, Paris / 1898, pág. 103
Origem da palavra almanaque, http://pt.wikipedia.org/wiki/
Almanaque José Augusto Carvalho, Por que almanaque? http://static.recantodasletras.com.br/arquivos/92140.doc
Ricardo Lindemann, A Ciencia da astrologia e as escolas de misterios: http://www.scribd.com/doc/3199667/Ciencia-da-astrologia-e-as-escolas-de-misterios-ARicardo-Lindemann

Rony P.G. do Vale / Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Dos Manuscritos à Internet: A Evolução dos Almanaques Farmacêuticos: www.uel.br/revistas/uel/index.php/signum/article/…/3095/2627