Livreiros e suas manias

Foi-se o tempo em que sebo era sinônimo de livros amontoados pelo chão e espalhados ao acaso. Na era digital, as livrarias têm de competir com a Internet em agilidade e organização. Muitos livreiros já sacaram isso e o resultado é que muitos sebos montados de uma década para cá surpreendem pela organização criteriosa de seus acervos. Alguns até deram-se ao trabalho de aprender biblioteconomia para racionalizar a distribuição das obras nas estantes e localizá-las rapidamente. Quem ganha com isso é o cliente, que não precisa perder tempo garimpando montanhas de livros empoeirados para encontrar a obra que deseja.

arrigo-bxQuem já passou dos cinqüenta e tem o hábito de frequentar sebos deve se lembrar do italiano Arrigo, verdadeiro alfarrabista à moda antiga. Sua livraria ficava no décimo andar de um prédio na Líbero Badaró e tinha raridades que faziam a delícia de todo bibliomaníaco. No entanto, encontrar a obra desejada no sebo do Arrigo era uma verdadeira tortura, pois mal dava para entrar nele. Os livros ficavam amontoados em pilhas empoeiradas pelo chão e nas estantes. Já no final de sua vida, a quantidade de obras aumentou tanto que era impossível entrar numa das salas da livraria: ela ficou literalmente lotada de livros empilhados sem a menor ordem! E, para piorar, o velho tinha o hábito de ler jornais o tempo todo; à medida que ia lendo, jogava as páginas no chão formando um tapete de jornais no labirinto de sua babélica livraria, povoada de baratas e traças.

Pouco antes da morte de Arrigo, a livreira Hilda Soban andou por lá à cata de algumas raridades. Quando foi pegar um livro no meio de uma pilha gigantesca e tremulante, Arrigo prontamente a impediu. “Non mexa aí! Se tirar qualquer livro do lugar vai romper o equilíbrio estático da pilha e vem tudo abaixo!” Não sei se “equilíbrio estático” faz algum sentido do ponto de vista científico, mas sem dúvida é um criativo eufemismo para designar a bagunça reinante na sua livraria…

Atribui-se a Arrigo uma anedota que circula entre os livreiros mais antigos: um cliente havia acabado de comprar-lhe uma raridade bibliográfica por alto preço e, ao folheá-la, encontrou um caruncho no meio dela. O cliente esboçou uma reclamação, mas Arrigo, dono de brilhante presença de espírito, desarmou-o dizendo: “Não se preocupe com isso! É brinde da casa.”

Alguns livreiros, da mesma forma que os seus clientes bibliófilos, também têm lá suas manias. Quem é do ramo sabe que pechinchar é uma praxe. No entanto, havia um sebo em São Paulo onde era proibido conjugar este verbo: se você pedisse qualquer desconto na livraria do Lisboa ele fechava a cara, tirava rispidamente o livro da sua mão e se recusava a vendê-lo. Se o freguês insistisse, acabava expulso dali… Apesar disso, quando o sebo fechou, deixou saudade, pois apesar da singularidade de seu proprietário era possível encontrar nele muita coisa boa a preços bem acessíveis.

E já que estamos resgatando algumas anedotas do passado, porque não encerrar contando mais uma do Seu Luiz, da Ornabi? Foi nos anos 40 e ele havia acabado de chegar ao Brasil. Seu primeiro emprego em São Paulo foi na livraria Lusitana, que hoje não existe mais. O presidente da República era o Dutra e sua esposa fazia a delícia dos cartunistas da época pelos seus quilinhos a mais. Em certa ocasião o Vieira, proprietário da livraria, percebeu que um de seus funcionários equilibrava-se há mais de meia hora no alto de uma escada, fuçando os livros do topo da estante. “O que você está fazendo aí?” – perguntou-lhe. “Estou a procurar a mulher do Dutra”, respondeu o empregado. Demorou para que o Vieira entendesse o que ele dizia. Na verdade o empregado, um tanto ou quanto obtuso, procurava por um livro solicitado por um fregues: A Mulher Adúltera, de Perez Escrich…