A ficção científica no Brasil

O gênero teve precursores ilustres como Machado de Assis, Aloísio de Azevedo, Coelho Neto, Humberto de Campos e Monteiro Lobato.

Cláudio Tsuyoshi Suenaga *, especial para o Jornal do Bibliófilo

Em 1868, Joaquim Felício dos Santos (1828-95) deu o pontapé inicial nofilha-do-inca1 gênero ao publicar o folhetim Páginas da História do Brasil, escritas no ano 2000, uma sátira à monarquia que incluía detalhes antecipatórios da tecnologia em curso, tais como a “telegrafia elétrica”, os “paquetes aerostáticos”, uma “estrada-de-ferro submarina” entre a França e a Inglaterra e a exploração dos pólos.
Grandes nomes de nossa literatura incursionaram pelo gênero, ainda que de forma esporádica e como exercício diletante, sem compromisso firmado com um estilo ou movimento definido, entre eles Machado de Assis (1839-1908), Rodolfo Teophilo (1853-1932), Emilia Freitas (1855-1908), Aloísio de Azevedo (1857-1913), Coelho Neto (1864-1934), Humberto de Campos (1866-1934) e Godofredo Emerson Barnsley (1834-?). Os destaques ficam para Albino José Ferreira Coutinho (1860-1940), autor de A liga dos planetas (1923), o primeiro romance brasileiro onde aparecem viagens espaciais; Gastão Cruls (1888-1859), autor de A Amazônia misteriosa (1925), sobre um grupo de exploradores que descobre uma tribo de mulheres guerreiras, descendentes dos incas, e um cientista alemão que usa os índios como cobaias em suas experiências genéticas, nitidamente inspirado em A ilha do Dr. Moreau, de H. G.Wells; e Monteiro Lobato (1882-1948), autor de O choque das raças (1926), intitulado depois de O presidente negro, em que um cientista constrói um instrumento para observar o futuro.
Da mais alta relevância para a antecipação nacional é Mennotti Del Picchia (1892-1988), autor de A República 3000 (1930), reintitulada depois como A filha do inca para que o público não o tomasse como uma obra política. O romance versa sobre uma expedição que, partindo do Rio de Janeiro para desbravar os sertões goianos, é dizimada por febres, feras e índios, só restando um erudito capitão e um cabo simplório, os quais esbarram numa imensa barreira energética de ossos de animais e de seres humanos de todos os tempos, uma espécie de campo de força que carboniza os que tentam transpô-la. Mas a dupla consegue ultrapassá-la e é aprisionada por homúnculos robotóides de um só olho, com dois dedos nos tentáculos. Estes seres, descendentes dos cretenses e dos incas, habitam uma cidade metálica, a República 3000.
Nos anos 30, as obras continuariam a proliferar de modo casual. A mulher do Diabo (1931) e Século XXI (1934) fecham a trilogia de Berilo Neves (1901-1974) iniciada com A costela de Adão (1929). Em suas histórias ambientadas nos anos 1980, 2000 e 5432 e no século 35, engenhocas futuristas aparecem em abundância. Em 1934, Epaminondas Martins contaria uma aventura passada em Netuno no seu O outro mundo. Zanzalá (1936), de Afonso Schmidt, é uma novela que se desenrola no ano 2028 num vale do interior de São Paulo. Em 1939, seria a vez de Érico Veríssimo (1905-1975) sair com o seu Viagem à aurora do mundo.

Publicado no Jornal do Bibliófilo, edição n° 2, maio de 2006

1 comment for “A ficção científica no Brasil

  1. 3 de dezembro de 2009 at 13:12

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