Um erro tipográfico célebre

Qualquer colecionador de livros sabe que a primeira edição de uma obra é machado-de-assis1sempre mais valiosa que as outras, apesar de muitas vezes ter sido impressa em papel ruim ou da má qualidade de sua impressão. O seu valor acaba sendo alto justamente porque são raros e pouca gente os possui. Mas, há casos em que uma primeira edição torna-se mais valorizada devido a um erro tipográfico que escapou à revisão do editor ou do autor e foi parar nas livrarias. Corrigido o erro nas edições subseqüentes, estes exemplares conquistam então o status de raridade bibliográfica. Este é o caso da primeira edição das Poesias Completas de Machado de Assis, publicado em 1902 pela Livraria Garnier.
No começo do século passado quase todos os livros desta editora eram impressos na França, mas, apesar da revisão cuidadosa que era feita em suas publicações, às vezes escapavam alguns erros. E foi justamente nesta obra, do mais importante autor brasileiro, que escapou um erro gravissimo: Machado escrevera à página 20, no prefácio, “… cegara o juízo …”, e o tipógrafo francês trocou o e por um a! O erro só foi percebido depois que a edição já estava na livraria e alguns exemplares tinham sido vendidos. Para corrigir o erro, um empregado da livraria (Everardo Lemos) sugeriu raspar com cuidado a letra a e escrever a letra e com tinta nanquim. Depois o editor Garnier providenciou a reimpressão da folha onde aparecia o erro, para substituí-la em todos os exemplares que ainda não tinham sido vendidos…
Por causa disso existem três tipos de exemplares da primeira edição das Poesias Completas de Machado de Assis: o primeiro sem a correção (rarissimo) com a palavra cagara, o segundo com a correção feita a mão e o terceiro com a folha impressa sem o erro. O felizardo que possuir em sua biblioteca um exemplar sem a correção tem em mãos uma obra cobiçada por qualquer bibliófilo digno deste nome…

Fonte: Rubens Borba de Moraes, O Bibliófilo Aprendiz, Cia Ed. Nacional, 2ª Ed., 1975)