O Vampirismo na Literatura

Histórias de vampiros e entidades similares, moradoras das regiões sombrias situadas entre a vida e a morte, representam um tema recorrente nas mais diversas culturas. Seres vampirescos já apareciam em Homero e no Asno de Ouro, de Apuleio (séc. II), bem como nas Mil e Uma Noites, embora a crença nos vampiros, originalmente, tenha surgido entre os povos eslavos, enraizando-se nos Balcãs.

Voltaire, no Dicionário Filosófico, definiu os vampiros como sendo os mortos que, durante a noite, saem dos cemitérios para sugar o sangue dos vivos, seja através da garganta ou do ventre. As vítimas empalideciam, definhavam, enquanto os sugadores engordavam e ficavam mais corados.

A crença popular concebeu variantes, como a “estrige”, proveniente etimologicamente do grego “strix” e que se refere a uma criatura meio mulher, meio cadela, que segundo as lendas antigas andava pela noite à procura de homens para sugar-lhes o sangue. Outra espécie de vampiro ou vampira, o “ghoul” – termo proveniente do árabe -, seduz e devora os homens bebendo seu sangue.

No Oriente, mais especificamente na Ìndia, a lenda de um gigantesco images_online_066066morcego, vampiro ou espírito maligno que habita e anima cadáveres, é muito antiga. Foi o germe que, segundo Isabel Burton, culminou nas Mil e Uma Noites, inspirou O Asno de Ouro de Apuleio, o Decameron de Boccaccio, e “tudo o mais que se escreveu em matéria de literatura fantástica”. Essa lenda, o Baital-Pachisi – ou Vinte e cinco contos de um baital, foi traduzida para o inglês por Sir Richard Burton, e publicada no Ocidente pela primeira vez em 1870 sob o título de Vikram e o Vampiro. Repleta de humor e muita informação sobre os usos e costumes indianos, esta compilação de fábulas é conhecida desde o século XI, mas baseia-se em textos muito mais antigos. Algumas dessas histórias aludem àquela prática dos devotos hindus, que se deixam enterrar vivos e parecer mortos durante semanas ou meses, para então retornarem de novo à vida. Um curioso estado de catalepsia, auto-induzido através da concentração mental e da abstenção de alimentos.

Apesar da universalidade e da antigüidade do tema, no curioso Diccionaire des Sciences Occultes (1846), seu autor, Collin de Plancis, faz um comentário irônico no verbete Vampiros: “…os vampiros não apareceram com todo o seu esplendor nos séculos bárbaros e entre os povos selvagens: eles só fizeram sua aparição no século dos Diderots e dos Voltaires, na Europa, que se dizia civilizada”. Na França, receberam o nome de upiers ou upires, e mais geralmente vampiros; de brucolacas (vrucolacas) nos Bálcãs; katakhanès no Ceilão; esses nomes eram dados aos homens que, segundo as lendas, voltaram após a morte depois de muitos anos ou dias enterrados. Eles reapareciam em corpo e alma, caminhando, infestando as aldeias, molestando as pessoas e os animais; e, sobretudo, sugando-lhes o sangue e causando suas mortes. O único meio de se livrar dessas perigosas visitas e suas invasões era exumá-los, empalá-los, cortar-lhes as cabeças, ou queimá-los. Os que morriam vitimados pelos vampiros, tornavam-se um deles.

Certo mesmo é que as lendas sobre vampiros e criaturas com hábitos semelhantes aos dos vampiros, existem há milhares de anos, mas só ganharam destaque no século XVIII, depois de uma série de incidentes ocorridos no leste europeu. O famoso caso de um soldado húngaro, Arnold-Paul, acusado de vampirismo, deu início a uma verdadeira histeria coletiva por lá. Além dos teólogos, estudiosos, como Voltaire, Rousseau e Diderot argumentaram a favor da existência dos vampiros e trataram do tema na esfera acadêmica. Em 1746, o padre francês Dom Augustin Calmet, primeiro “vampirólogo” de que se tem notícia, publicou sua Dissertations sur les Apparitions des Anges, des Démons & des Esprits, & sur les revenants, & Vampires de Hungrie, de Bohême, de Moravie, & de Silésie, onde registrou varios casos que serviram de base para os ficcionistas construírem histórias de vampiros. A documentação a respeito é tão detalhada, e entre os testemunhos figuram pessoas tão dignas de crédito (como padres, militares e médicos), que parece impossível que todas elas estivessem equivocadas…

Jean Jacques Rousseau tinha uma convicção tão grande neste assunto que chegou a afirmar audaciosamente: «Se houve alguma vez no mundo um fato garantido e provado, é o dos vampiros. Não falta nada: informes oficiais, testemunhos de pessoas de alta categoria, de médicos, de religiosos e de juízes; as provas judiciais são avassaladoras.» A Áustria, a Hungría, a Iugoslávia e a Romênia (que estava então dividida nos três estados separados da Valáquia, Moldávia e Transilvânia) foram particularmente infestadas pelo vampirismo nos séculos XVI, XVII e XVIII. Um médico, chamado para investigar uma série de casos, escreveu: «O vampirismo… se propagou como uma peste através da Eslávia e da Valáquia, causando numerosas mortes e transtornando todo o país com o temor aos misteriosos visitantes contra os quais ninguém pode sentir-se seguro.»

Com toda essa repercussão, o vampirismo logo atraiu a atenção dos escritores, que só tiveram de reelaborar essas histórias, explorando um filão que até hoje parece inesgotável. O romantismo, ao romper com os cânones do racionalismo clássico, assumiu também o tema, que se tornou uma das vertentes prediletas do gênero gótico. Victor Hugo, Prosper Merimée e até Goethe escreveram poemas “vampirescos”. Apesar disso, o protótipo do vampiro teve a sua forma literária fixada de modo definitivo no mundo de fala inglesa. E o que pouca gente sabe é que, muito antes de Bram Stocker e seu Drácula, coube a William Polidori (1795-1821), o conceituado jovem médico de Byron, a honra de estabelecer o modelo mais consagrado e conhecido de história de vampiros. O conto do cruel lorde Ruthven, um requintado vilão do tipo gótico (em parte inspirado na figura de Byron), mesmo sendo muito curto exerceu enorme influência, especialmente na França, onde foi imediatamente adaptado para o palco, por Charles Nodier, e na Alemanha serviu de base para uma ópera de Marschner, O Vampiro (1828).

A história de Polidori emergiu durante a mesma noite chuvosa que deu origem a Frankenstein, quando Shelley, sua mulher Mary Godwin, Byron, Polidori e ocasionalmente Mathew Gregory Lewis, liam histórias alemãs de fantasmas na Villa Diodatti, perto de Gênova, e resolveram tentar eles mesmos escreverem histórias semelhantes. Diz a lenda que fizeram uma aposta para ver quem escreveria a melhor história, competição que a mulher de Shelley venceu com o seu imortal Frankenstein. O episódio serviu de tema para o filme Gothic, de Ken Russel.

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Ilustração da obra de James Malcolm Rymer, Varney, or, The Feast of Blood (1847)

A tentativa novelesca de Byron chegou ao fim depois de umas poucas palavras, mas seu tema foi usado por Polidori para O Vampiro, publicado em abril de 1819 no New Monthly Magazine. Este conto foi muitas vezes atribuído erroneamente a Byron e admirado como obra sua, fato que contribuiu bastante para a sua popularidade no continente. A influência de Polidori pode ser vista na obra de James Malcolm Rymer, Varney, or, The Feast of Blood (1847).

Embora Byron não tenha chegado a escrever nenhuma história de vampiros, há referências ao tema no seu poema narrativo “The Giaour” (O Renegado, fragmento de um conto turco, de 1813). Aliás, Byron foi chamado de “gentleman-vampyre” por Tristan Corbière…

Até a publicação do conto pioneiro de Polidori, as lendas e histórias de vampiros compiladas por Dom Calmet tinham como protagonistas homens do povo: aldeões, soldados, camponeses. Ao basear-se na figura de Byron para construir o seu personagem, Polidori consagrou o modelo do vampiro de origem nobre, sofisticado e remanescente de um mundo em extinção. Assim, o mais famoso dos vampiros, o Conde Drácula, criado por Bram Stoker em 1897, era também um “gentleman”, um homem de alta nobreza.

As implicações sexuais do vampiro, com fortes pinceladas de necrofilia, são componentes que ajudam a entender o fascínio que o tema tem despertado nos escritores ao longo do tempo. O irlandês Sheridan Le Fanu foi mais longe e deu um toque lésbico ao tema, na sua novela Carmila (1872). A personagem título é uma vampira que atrai a passiva Laura para o seu castelo, na Styria, onde a seduz gradualmente num clima romântico. Muitas cenas têm forte erotismo explícito, apesar das limitações impostas pelo moralismo da era Vitoriana.

O elemento sexual foi também explorado por Théophile Gautier em A Morte Amorosa (1836). Aqui, o abraço mortal do vampiro é transformado pelo amor num beijo de vida, quando a cortesã Clarimonde desperta seu amado, o introspectivo padre Romuald, para uma nova vida. O verdadeiro vilão é o abade Serapião, um vampiro assassino, e a moral da história é irônica: “nunca olhe para uma mulher, caminhe sempre com os olhos fixos no chão porque, por mais casto e resoluto que você seja, basta um minuto para perder a eternidade”. Um ano depois, em 1837, Prósper Merimée publicaria A Vênus de Îlle, que embora não seja uma história de vampiros, mostra igualmente a mulher como uma figura terrível e fatal. Cave Amantem, cuidado com aquela que te ama, é a advertência gravada no pedestal da Vênus de bronze, que causa a destruição de todos que a possuem. Essa visão da mulher como instrumento de perdição reaparece na obra de Wladislaw Reymont, escritor polonês vencedor do prêmio Nobel, na sua novela Wampir (1911) onde escreveu que “para o verdadeiro artista, a mulher é o seu mal, o demônio destruidor, ela é o seu vampiro”.

Uma das mais originais e terroríficas histórias de vampiros é Viy (1835), de Nicolai Gogol, supostamente transcrita de algum conto folclórico, em que um estudante que matou uma bruxa é forçado pelo pai dela a ficar velando o seu caixão durante três noites sucessivas. Enquanto Viy pode ser considerada a mais grotesca das histórias de vampiro, Fantasmas (1864), de Ivan Turgueniev, é talvez a mais espiritual de todas, com a sua lírica descrição dos passeios noturnos de uma bela mulher vampiro, tendo como pano de fundo a gélida paisagem européia.

Também merecem registro duas histórias notáveis de Alexey Tolstoi: O Vampiro (1841), uma complexa história de amor, e A Família do Vurdalak, um conto de vampiros sérvios, que capta o sabor do mais autêntico folclore. Este último foi escrito em francês e publicado na Rússia somente em 1884.

Muitas histórias foram escritas sobre esse tema, mas a mais notável, é claro, foi Drácula (1897), de Bram Stoker, inspirado numa figura real: o nobre chefe militar Drakula, terror da Valáquia no século XV. Foi influenciado por Carmila, mas seu livro tem uma estrutura de narração inventiva, entrelaçando diários, cartas, telegramas e notícias de jornal.

Outras histórias ainda continuam a ser escritas nos dias de hoje (como Conversa com o Vampiro, de Anne Rice), pois o tema parece inesgotável. Entretanto, poucas têm suficiente originalidade para merecer algum destaque.

Bira Câmara

Cronologia das primeiras histórias de vampiro, antes de Drácula:

1816 – “Fragmento de um relato”, Lord Byron

1819 – “O Vampiro”, William Polidori

1821 – “Vampirismo”, Hoffmann

1828 – “O Vampiro”, ópera de Marschner

1835 – “Viy”, Nikolai Gogol

1836 – “La morte Amoreuse”, Théophile Gautier

1841 – “O Vampiro” e “A Família de Vurdulak”, Alexei Tolstoi

1842 – “O retrato oval”, Edgar Allan Poe

1847 – “Varney, or, The Feast of Blood”, James Malcom Rymer

1849 – “A dama pálida”, Alexandre Dumas, pai

1864 – “Fantasmas”, Ivan Turgueniev

1870 – “Vikram e o Vampiro”, lendas indianas traduzidas por Richard Francis Burton

1872 – “Carmilla”, Sheridan Le Fannu

1886 – “O Horla”, Guy de Maupassant

1897 – “Drácula”, Bram Stocker

 

3 comments for “O Vampirismo na Literatura

  1. 26 de maio de 2009 at 10:41

    “Twittei” esse link…

  2. Helayne
    31 de outubro de 2011 at 20:54

    Adorei o texto, muito bom mesmo, já estou baixando o filme Gothic e estou à caça desse conto do Gógol, obrigada mesmo!

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